14 de janeiro de 2011

Amordaçado

Os dias seguiam o seu curso: acordar, sair, trabalhar, voltar e dormir. Nada mais havia na sua vida. Nada mais havia que fazer. Nem se apercebia do vazio, na verdade, nem o sentia.
Foram anos, quem sabe mais de uma década, em que a sua vida era vivida, ou desperdiçada, a este ritmo triste. Não era o único.
Como explicar o que aconteceu, seria uma tarefa apenas ao alcance de um qualquer génio intelectual. Esses, os génios intelectuais, estavam mortos ou perdidos no quotidiano da sociedade moderna. Hoje em dia é uma tarefa que a mim e, apenas a mim, cabe.
O futuro, tantas vezes imaginado, tornou-se num lugar frio e sombrio. Ele não o sabia, não na altura, mas não era nada do que tinha imaginado. Palavra sem sentido nos dias de hoje, peço perdão, de ontem. Imaginação, morta e mais que morta a palavra e a capacidade.
Podia contar a sua história, ou melhor, a nossa e de como tudo aconteceu para chegar a este ponto, mas prefiro contar a dele, a nossa, de como tudo terminou. Ou, pelo menos, deu início ao fim.
Os dias seguiam o seu rumo. Como sempre, o horário de trabalho era cumprido de forma mecânica. A imaginação e o pensamento há muito que tinham desaparecido, tinham sido bloqueados por uma sociedade incapaz de aceitar a inovação e de respeitar a capacidade humana de sonhar.
Ainda que na altura ninguém soubesse o como, algo fez com que tudo desaparecesse das nossas cabeças. Quem sabe quanto tempo durou na verdade, é uma pergunta que terá de ficar sem resposta, pelo menos em forma de tempo, mas a resposta correcta, é tempo demais.
Como era espectável, os dias seguiram o seu rumo. Até aquele dia, o dia da mudança como ele lhe chamava.
Fez tudo como era normal, excepto um pormenor, um ligeiro pormenor, que mudou tudo.
Algo fez com que não tomasse as vitaminas obrigatórias depois de almoço. Se foi um encontrão que as deitou para o chão, ou qualquer outro motivo, ele não se recordava. Mas foi o início.
Contou-me que foi um acordar. Hoje compreendo, penso eu, as suas palavras.
Disse-me, confidenciou-me, que nesse dia seguia para casa, como seria o normal, quando algo o assustou. Uma voz soou dentro da sua cabeça. Apenas uma palavra. “Feio”. Chegamos juntos à conclusão que deve ter pensado no que o mundo se tinha tornado, menos filosóficos, entre copos, concordamos que podia ter passado por um tipo feio.
Ficou com medo, aterrorizado, com a sua própria mente. E nesse momento, o medo rugia dentro de si. “Mente” outro conceito, outra palavra. Outro pensamento.
Disse-me que ficou acordado a noite toda, palavra a palavra, os pensamentos brotavam na sua mente.
Recordo-me que uma vez me disse que se sentia estúpido, porque a primeira frase coerente de pensamento que se lembrava de ter tido, não passava de um medo terrível de puder ser ouvido por algum agente ou microfone escondido pelo governo. Só depois, percebeu que as suas palavras não tinham som. Não para o mundo exterior.
Dizer nesta fase que os dias seguiram o seu rumo seria ridículo, não seguiram. Ele, o desconhecido, voltou a levantar-se e ir trabalhar e, mais uma vez, falhou a vitamina obrigatória.
Nessa tarde, diga-se a segunda sem o bloqueio da mente, pensava a caminho de casa. A novidade era mesmo o pensar, voltar a puder fazê-lo. Pensava que tudo isto era uma loucura impensável, um sorriso triste e irónico surgiu no seu rosto. Era uma loucura que nos impedia de pensar.
Essa noite foi uma das mais solitárias da sua vida. Pelo que me disse, relembrou livros e filmes que antes tinha visto. Personagens que tinha visto, que criavam mundos dentro do seu mundo. Todas elas mortas, levadas por aqueles malditos sádicos que nos governavam.
Um dia perguntei, sem obter resposta, se tinha imaginado uma revolução. Uma mudança, a liberdade para todos nós. Sorriu e disse-me que um dia me daria a resposta à minha pergunta, era a sua forma de garantir que lhe continuava a pagar uns copos.
Os dias foram passando e as vitaminas foram ignoradas, escondidas e, posteriormente, destruídas. Não podiam existir provas. O seu pensamento, imaginação e, acima de tudo, a racionalidade estavam de volta.
Não tive de lhe perguntar como se sentiu em relação a esse processo. Também eu passei por ele. Posso apenas dizer que é uma sensação de alívio igual ao desaparecer de um formigueiro chato e demorado nas pernas. Agora pensem como seria mil vezes pior e mais longo, no cérebro.
Mas continuemos a história dele, o desconhecido, porque essa é a que realmente importa.
O caminho para o trabalho começou a ser recheado de pensamentos, muitos deles sexuais, acerca das pessoas com quem se cruzava. “Os amordaçados” como nos chamava na altura da sua recente liberdade.
Contou-me, confidenciou-me, que esperava todos os dias pelo momento em que se iria cruzar com a secretária morena de olhos castanhos que se encontrava à porta do gabinete do governo. Sim, o governo tinha um gabinete em todas as empresas e locais de trabalho, por forma a assegurar que as suas leis eram cumpridas. Até parece que alguém as podia quebrar? Bem, agora que escrevo isto, penso que tinham algum fundamento nesses receios.
Mas pronto, continuemos, falou-me de uma vez em que a via passar algo nas unhas, como se as tivesse a pintar, com uma tinta invisível, pois as coras há muito que estavam banidas do mundo. Pensava nela como a miúda das unhas de cor invisível. Nome estúpido, sim, eu sei, disse-lhe mais que uma vez nos bares que frequentamos. Mas, a verdade, a que me faz sorrir com um pouco de inveja, confesso, é que ele partiu, aproveitou a sua liberdade ao lado da secretária, a tal das unhas.
Foi o último dia que o vi. Lembro-me do abraço. Lembro-me até do cheiro a colónia barata que tinha impregnado no rosto.
As suas últimas palavras são inesquecíveis:
- Meu amigo, meu irmão, quero que saibas a resposta à pergunta que um dia me fizeste. Sim, tive um plano, uma visão, uma imaginação obscura de como podia deitar o governo abaixo. Salvar todos nós. Mas não a realizei, em vez disso, roubei-te a vitamina. Esperei que saísses do escritório e contei-te a minha história. Tu fizeste o mesmo com outro irmão, e com isso, o governo e toda a sociedade opressiva, caiu. Tu, meu amigo, meu irmão, foste o início do meu plano. Não o produto de uma imaginação atormentada por um sentimento de vingança, pelo contrário, o desejo de que cada vida fosse como a minha, um livro em branco.
Sorriu e partiu. Deixou-me de lágrimas nos olhos. Maldito desconhecido. Bendito irmão.
Assim, a quem interessar, deixo o seu relato, muito incompleto e misturado com lembranças minhas, mas é o que tenho, o que todos nós temos. Sei que ele nunca irá revelar a sua identidade, nem colher os louros que outros não hesitariam em utilizar para, mais uma vez, dobrar a sociedade aos seus desejos. É por isso, e apenas isso, que vos conto esta história. Apenas para que saibam, que um dia, a nossa vida não foi um livro em branco onde escrevemos a nossa própria aventura. Um dia foi uma prisão. Que esse dia seja para sempre amaldiçoado. E que nunca regresse. É esse o motivo desta história que vos conto, e que recordo.  

Por: Miguel Brito
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