8 de março de 2013

Entrevista ao escritor Paulo Fonseca

Vou iniciar a minha série de entrevistas com o Paulo Fonseca, autor da trilogia "Império Terra", ao qual desde já agradeço pela sua disponibilidade.


Império Terra é uma trilogia que aborda um mundo pós-apocalíptico e a terrível luta pela sobrevivência. 

Eu já li os dois volumes publicados da trilogia, "O Início" e "Guerra da Pirâmide", e são dois livros com qualidade, mas que não têm o devido reconhecimento. Se estiver interessado em os adquirir poderá o fazer através do blogue do autor. 



Sei que está a fazer a revisão ao terceiro volume da trilogia, já tem alguma previsão para o lançamento?

Não posso responder a esta questão sem fazer uma introdução. O terceiro volume teve já diversas versões, contudo, apenas esta chegou ao fim. Todas as outras conduziram-me a um caminho que, a dada altura, me desagradou e me fez perceber que não era aquilo que pretendia escrever. Depois de alguma meditação sobre o assunto consegui desenhar o esquema, o story line – se preferires – e arranquei. Todavia, no final, acabei com uma história volumosa; nunca pretendi um livro muito grande, por tudo aquilo que está associado à difícil edição de livros grandes. Neste momento, a revisão implica um trabalho profundo de análise e avaliação que pretende, não só, garantir a qualidade, mas também o emagrecimento – essencial: uma tarefa descomunal, porque – regra geral, no meu caso – a revisão acaba muitas vezes por complementar o texto original, engordando-o. Além disso, existe alguma resistência nas editoras em publicar um terceiro livro, sem terem publicado os anteriores. Tudo isto somado, faz-me acreditar que não posso adiantar uma data para o lançamento; e embora gostasse muito de o publicar em 2013, talvez tenha de me conformar com a ideia de 2014. A isto não é indiferente, uma ideia que tive – uma estratégia – que poderá tornar a edição do Império Terra III, muito mais atraente; mas mais não digo – o segredo é alma do negócio. No entanto, faz parte dos meus projectos dar alguma coisa a quem gosta deste universo; tenho uma ideia para publicar directamente no meu blog http://imperioterra.blogspot.com uma história que terá lugar algures entre o momento em que Nolen relata a Guerra da Pirâmide e o início do terceiro volume.

Poderá falar-nos um pouco do mundo pós-apocalíptico que criou para a trilogia?

Quando tive a ideia de Império Terra, quis criar um Fim do Mundo diferente dos lugares comuns: asteróides, guerras e epidemias. Para mim o mundo teria de findar, mas teria de estar intacto, porque existia uma mensagem que eu queria passar que era a resposta ás seguintes questões: e se tudo aquilo com que contamos, hoje, acabasse? Quem nos tornaríamos? Que caminho seguiríamos  Este foi o inicio de tudo... Mas também aqui é importante fazer um preâmbulo. O primeiro livro a ser escrito foi a Guerra da Pirâmide. Isto aconteceu, porque eu tenho alguma obsessão pela coerência. Assim, tinha de arranjar um passado que pudesse trazer semelhante fim; esse passado surgiu com a Guerra da Pirâmide. Apenas com o ataque de um povo que não gosta de usar a sua tecnologia superior, que prefere perseguir e acossar, e que não pretende nada mais do que encontrar uma coisa que há muito procura, seria possível ter um mundo vazio de gente – de repente – e intacto, em condições de permitir que a humanidade escolhesse o seu novo caminho. E só então, escrevi Império Terra: o princípio; depois de saber o que tinha acontecido há milhares de milhares de anos atrás e as suas consequências para um nefasto dia de Outubro de 2029. É claro que, depois, a fasquia tornou-se mais alta e a pergunta principal nasceu: E se tudo o que te contaram não for a verdade? O meu projecto inicial transformou-se numa – não diria epopeia – mas numa jornada para mostrar uma história do Universo, e da humanidade, diferente.



O que o levou a escolher Lisboa como o cenário original?

«Escreve sobre o que conheces», é uma máxima apontada por muito escritores. Lisboa é uma cidade que conheço bem, principalmente a área onde a história se desenvolve, é uma cidade cheia de luz e movimento, e sendo a capital de Portugal que melhor sítio para se desenhar um princípio de um fim, para demonstrar os contrastes entre aquilo que o mundo era e aquilo em que ele se tornou?Apenas para aguçar a curiosidade, no terceiro volume regressamos a Lisboa...

Qual a personagem por quem nutre um maior carinho?

Gabriel, sem dúvida nenhuma. Será injusto não referir os outros, porque todos são importantes, e porque a todos me apeguei de alguma maneira; por exemplo, gostei muito do Argu Revorelta, da Elira, do Sibael, do Nolen e do Trebar... e na redacção do terceiro comecei a apreciar outros. Mas, se tivesse de eleger um, seria o Gabriel. Mas isto dos personagens é interessante. Cada autor relaciona-se com eles de uma maneira particular, tal como os leitores. Para mim, a partir do momento que estão criados são livres – por assim dizer – e desenvolvem-se sozinhos – por assim dizer, também; e, por vezes, quebram as nossas expectativas e desiludem-nos ou superam-nas e tornam-se heróis inesperados. Por exemplo, nas Crónicas de Allarya, do Filipe Faria, eu sou fã do Quenestil. E tu, na Guerra da Pirâmide, surpreendeste-me ao dizeres que o teu preferido era o Onileva – que aos meus olhos é um personagem secundário; o que me fez crer que foi um personagem muito credível.

Para si, qual é a importância dos blogues na divulgação de livros?

No nosso mundo, onde a maioria das pessoas vai à internet em busca de informação, os blogs têm um importância determinante. E isso sucede, não só por facultarem informação, mas porque numa sociedade em que abundam tantos títulos dentro do mesmo género, e em que o tempo é escasso, torna-se necessário escolher bem o que se vai ler, e os blogs dão-nos essa possibilidade. Ao fazerem isso tornam-se referências para os leitores e - em alguns casos – essas referências são tão importantes que as próprias editoras se associam aos blogs. Desta mecânica surge uma sinergia que é a própria divulgação das obras e dos autores. Para além dos blogs, como o teu, que divulgam diversas obras, há depois os próprios blogs dos autores, dedicados ás próprias obras. Devo dizer, sobre os últimos, que é muito complicado conseguir fazer essa divulgação quando se tem um trabalho 9-18 e se quer escrever todos os dias – é por isso que, regra geral, apenas publico ás quartas.

De onde nasceu o seu interesse pela literatura?

O meu interesse pela literatura foi nascendo aos poucos, e posso dizer que até despontou tarde. O meu pai tinha, e tem, muitos livros em casa; não era uma vasta biblioteca, mas para mim era imensa, e sempre sentira curiosidade pelo conteúdo daqueles «pacotes de papel» e comecei a ler alguns. Até dada altura o meu género estava cingindo ao policial e ao mistério, que era aquilo que mais existia em casa dos meus pais; mas depois comecei a ler títulos menos representativos, mas assaz interessantes e que me mostraram outros géneros. Creio que o momento mais alto, aquele que me define enquanto leitor, foi quando descobri que podia levar livros para casa, de borla, da biblioteca municipal; foi aí que comecei a ler a sério e comecei pela Trilogia do Senhor dos Anéis. Depois disso ninguém mais me parou; lia tudo aquilo que achasse interessante. Já do ponto de vista do escritor, de como a ideia de escrever nasceu, tudo começou numa brincadeira: um concurso literário, no 9º ano. O que escrevi foi uma patacoada enorme, em que – basicamente – brincava com alguns familiares meus. Mas foi o suficiente para que nascesse o «bichinho». Nesse ano escrevi dois proto-romances policiais – o género em que estava mais à vontade. Mais tarde, num desafio lançado à turma por um professor de Português, escrevi um pequeno conto sobre a aventura de um pescador no mar revolto. O professor adorou; comparou-me a Raúl Brandão – o que me deixou orgulhoso – e o que me valeu a alcunha de Alfred «patilhas» Hitchcock. Nesse momento nasceu o sonho de ser escritor, comecei a escrever o meu primeiro romance policial, que está na gaveta - cheio de coisas escritas por um adolescente que via na escrita de histórias a possibilidade de ser o herói que desejava; de lá até cá, numa jornada conturbada, fui escrevendo alguns contos, alguma poesia, e esse sonho foi ficando esquecido. Até que ressurgiu e deu origem ao Império Terra.



Quais os seus escritores preferidos?

Como tenho sempre dito, não me considero um escritor de género. Ou seja, gostaria de ser visto, um dia – se tiver essa sorte – como um escritor, tão somente. Gosto muito do género fantástico e Hoje acho que daqui a muitos anos – espero eu -, quando olhar para aquilo que produzi, estarei a ver uma pilha de livros de Fantástico e umas torres mais pequena - e menos vistosas - de outros géneros; no entanto, posso estar enganado. A verdade é que escrevo conforme a história nasce, e nem sempre nasce no fantástico. Devo isso ao facto de ter convivido, se assim se pode dizer, com uma vasta gama de géneros literários. Sendo verdade que comecei pelos policiais, não é menos verdade que assim que pude pisar outros terreno o fiz. Por isso, estão entre os meus autores, favoritos: Agatha Christie, John Le Carré, Balzac, Kafka, Marion Zimmer Bradley, Juliet Mariller, Arthur C. Clark, Konsalik, Isac Asimov, Almeida Garret, Tolkien, Julio Verne, Daniel Silva, Paulo Coelho... Poderia continuar e continuar. O que importa dizer - e isto é uma espécie de sugestão; é que todos os autores nos enriquecem de alguma maneira; em todos eles eu encontrei inspiração e força para continuar a trilhar este caminho.

Qual o livro que gostava de ter escrito?

Não consigo dar essa resposta. Há livros que me impressionaram pela história, mas que o modo como foram escritos não me arrancaram nenhuma exaltação. Há livros cuja história não é nada de especial, mas o escritor deu-lhe uma vida inebriante através das suas palavras. Um bom livro é conseguido pelo equilíbrio daquelas duas dimensões. Por isso, dizer que gostava de ter escrito este ou aquele livro, é impossível. Mais facilmente identifico partes das narrativas que gostava de ter escrito; ou melhor, que gostava de conseguir escrever com igual brilhantismo. São essas partes que me inspiram e me fazem querer ser um melhor escritor.

Já tem mais projectos em mente?

Um escritor escreve. Aqui há algum tempo li um texto que dizia exactamente isto: há pessoas que querem ser escritores e há os escritores; os primeiros perseguem um sonho, os segundos realizam-no. Eu enquadro-me no segundo; escrevo. Por isso a resposta à pergunta é sim. Tenho dois livros publicados, um terceiro em revisão; mas tenho mais dois terminados; e entretanto publiquei dois contos pelas colectâneas da Pastelaria Studios – «Ocultos Buracos» (Poseidon) e «Na Corda Bamba» (Madnov); estou a escrever outro romance, enquanto faço a revisão do Império terra III. E, para terminar, há o tal projecto de romance online. Ideias tenho muitas, vou apontando-as num caderninho; o tempo é que é pouco. 
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