28 de outubro de 2010

Criaturas Maravilhosas


Sinopse: 


"Lena Duchannes é diferente de qualquer pessoa que a pequena cidade sulista de Gatlin alguma vez conheceu. Ela luta para esconder o seu poder e uma maldição que assombra a família há gerações. Mas, mesmo entre os jardins demasiado crescidos, os pântanos lodosos e os cemitérios decrépitos do Sul esquecido, há um segredo que não pode ficar escondido para sempre.
Ethan Wate, que conta os meses para poder fugir de Gatlin, é assombrado por sonhos de uma bela rapariga que ele nunca conheceu. Quando Lena se muda para a mais infame plantação da cidade, Ethan é inexplicavelmente atraído por ela e sente-se determinado a descobrir a misteriosa ligação que existe entre eles.
Numa cidade onde nada acontece, um segredo poderá mudar tudo.
"

Opinião - "Sonho Febril"




Sinopse:

Venha conhecer a lenda do Fevre Dream e a sua jornada inesquecível pelo grandioso rio Mississípi
Rio Mississípi, 1857. Abner Marsh, respeitável mas falido capitão de barcos a vapor, é abordado por um misterioso aristocrata de nome Joshua York que lhe oferece a oportunidade única de construir o barco dos seus sonhos. York tem os seus próprios motivos para navegar o rio Mississípi, e Marsh é forçado a aceitar o secretismo do seu patrono, não importando o quão bizarros ou caprichosos pareçam os seus actos. Mas à medida que navegam o rio, rumores circulam sobre o enigmático York: toma refeições apenas de madrugada, e na companhia de amigos raramente vistos à luz do dia. E na esteira do magnífico barco a vapor Fevre Dream é deixado um rasto de corpos... Ao aperceber-se de que embarcou numa missão cheia de perigos e trevas, Marsh é forçado a confrontar o homem que tornou o seu sonho realidade.

Opinião:


Este livro é da autoria do meu escritor favorito George R.R. Martin, o criador das Crónicas de Gelo e Fogo. Sonho Febril foi escrito antes da recente febre dos vampiros, e por isso gosto muito mais das descrição destes vampiros maldosos e impiedosos  em vez de recente moda dos "vampirinhos bonzinhos".

Este livro levamos a conhecer um sonho de um homem chamado de Abner Marsh e que é considerado o homem mais feio da região, em construir o mais luxuoso e rápido barco a vapor do Rio Mississípi. Com a ajuda do noctívago Joshua York ele consegue realizar o seu sonho e construí  o magnífico Fevre Dream.

Para mim uns dos pontos fortes do livro são as duas personagens principais Abner e Joshua e a estranha relação que desenvolvem entre si. Destaco também o Damon Julian e o Sour Billy Tipton que são duas personagens que encaram o verdadeiro mau. Sendo que o Julian é um mestre vampiro com mais de 700 anos e Sour Billy o seu criado humano que deseja  desesperadamente ser vampiro .

Gostei muito das descrições pelo Martin a vida que havia num barco a vapor e a detalhada descrição das tarefas que cada pessoa tinha a bordo. O  ambiente que rodeia o Rio Mississípi também ajuda a criar um ambiente de suspense que leva o leitor a sentir os medos das personagens. O livro também falamos um pouco  duma das partes mais negras da história do homem a escravatura.

Sendo de uma leitura muito agradável e fluída este livro terá que obrigatoriamente ir para a estante de qualquer apreciador das obras do George R.R. Martin se bem que seja bastante diferente dos livros da Crónicas de Gelo e Fogo. Para mim é um livro a comprar. Recomendo!

Classificação: 8-10

Lição

Finalmente era Sábado. Hoje era dia de apanhar o comboio até Évora, e sentar-me com a Luísa nos degraus do spot do Bacelo e ver os skaters cair. Vamos como sempre ficar horas na conversa, entusiasmados com o que temos em comum. Assim espero eu pelo menos.
            Como era normal avisei o pessoal que só voltava à noite, já nem me perguntavam para onde ia. O meu sorriso dizia tudo. Depois de uma semana inteira a ouvir as bocas do costume e a ser perseguido pelos idiotas do costume é o dia em que sou livre. Cheguei à estação de Santa Apolónia bem cedo pela manhã. Quem já caminhou pelas ruelas de Alfama sabe que o cheiro nesta parte de Lisboa não é igual a mais nenhum. É com isso que me identifico com Évora, é o cheiro a história. Depois de comprar o bilhete, fui beber um café enquanto esperava pela hora da viagem. Peguei, como era normal, no jornal de sempre que estava preparado para satisfazer as curiosidades dos clientes. Falavam em reforços do Sporting, li com atenção as mesmas, pois acreditava que este seria o ano em que iriamos calar os lampiões. Depois reparei numa notícia acerca de uma chamada de telemóvel do primeiro-ministro que deu uma barraca qualquer e por último um balanço da operação de Natal da GNR. Mais uns quantos mortos. Era sempre igual, bebida e condução acaba quase sempre no caixão. Era o lema do meu pai, e um dos motivos pelos quais não bebia nem uma gota de álcool. Não ajudava à minha imagem na escola. Penso que esse não era o problema, mas sim o facto de ter mais que uns quilos a mais. Sempre fui duas coisas, inteligente e preguiçoso. As duas misturadas resultam em boas notas e gordura acumulada. Não sou um deus grego como as miúdas procuram, mas também não sou um monstro que deveria estar num labirinto. Bem, há dias em que me sinto como tal.
            A viagem começou, tinha duas horas pela frente. Agarrei no livro que tinha escolhido para hoje. Falava de um rapaz que tinha sido abandonado pelo pai e que mais tarde se tinha tornado assassino pessoal do rei. Era um bom livro e com duas horas, um café e pouco barulho na carruagem foi uma óptima viagem.
            O comboio começou a abrandar, e assim fechei o meu livro, estava quase no fim e mal podia esperar pelo próximo. Arrumei as minhas coisas, deitando fora o copo de café e os papéis dos rebuçados que comi. Sempre fui guloso. O comboio parou e rapidamente saí da estação. Senti o vento gelado na cara, o mesmo ar de Lisboa, ar com cheiro de história. Com os auscultadores nos ouvidos fui ouvindo 30 Seconds to Mars enquanto me desviava das pessoas apressadas. Consultei o telemóvel, ainda nada da Luísa. Era estranho mas talvez estivesse sem rede. Como queria voltar a ver o seu sorriso, aqueles olhos castanhos derretiam o meu mundo. Era como eu, gulosa e solitária. As vantagens da internet é conhecer quem tem precisamente os mesmos interesses que nós. O seu sorriso era do mais doce que tinha visto. Talvez mais ninguém olhasse para ela duas vezes na rua, mas para mim tinha uma aura que brilhava, irradiava felicidade na tristeza profunda que era o meu mundo.
            Cheguei,bocejando, aos degraus do Bocelo.Sentei-me à espera da minha musa,questionando-me se seria hoje que teria coragem de a beijar. Sabia que ela também queria, mas a vergonha e o profundo receio de alguma forma a desiludir e terminar com esta ilusão, fazia com que voltasse sempre para Lisboa sem conhecer o calor dos seus lábios.
            Já tinham passado 40 minutos desde a hora de sempre, e nem uma chamada no telemóvel. Não era normal. Resolvi telefonar, embora com algum receio de parecer paranóico ou possessivo. Nada. Tentei mais duas vezes e nada. Apesar de saber onde ela morava, não queria ir tocar à campainha. Podia aparecer o pai dela, e tinha depois em mãos uma tarefa complicada. Assim continuei a ouvir música, olhando para a zona dos skaters. Estavam estranhamente parados. Mais do que uma vez, os vi a olhar para mim, e nasceu no meu peito o receio imediato de que me viessem chatear. Nunca tinha tido problemas em Évora, a Luísa dizia que era do tempo. As pessoas eram mais solitárias e menos dadas a confusões. O meu professor de psicologia concordava com ela.
            Gotas de suor caíram ao longo do meu rosto, quando os vi a caminhar em minha direcção. Agarrei no telemóvel e comecei a escrever uma mensagem para a minha atrasada companhia.
-Então Luísa já te esqueceste de mim? Estou à tua espera nos degraus. Diz algo! Beijos. – Enviei.
            Nunca pensei em ficar aborrecido por ser rápido a enviar mensagens, mas a verdade é que o grupo ainda se aproximava de mim quando eu já tinha arrumado o telemóvel. Os neurologistas dizem que quando nos vemos numa situação de perigo eminente só temos duas reacções possíveis. Ou fugimos ou lutamos. Eu fugi, agarrei nas minhas coisas e comecei a correr. Durante a corrida ouvi gritos a pedirem que parasse, mas nunca o fiz. Já só tinha um perseguidor, percebi que ele não ia desistir e então parei. Cerrei os punhos encarei o mitra.
-Não tenho dinheiro! – Informei com cara de parvo, na realidade sentia-me parvo.
- Calma meu! Tu não és aquele miúdo de Lisboa que se vem abancar com a Luísa ali nos degraus e se riem das nossas quedas? – Perguntou com uma cara estranha
- Costumamos ficar ali sim, mas não nos rimos de vocês! – Menti com medo
- Não faz mal, é um desafio! Quando não se riem é porque estamos a fazer bem! Mas não era por isso que vínhamos ter contigo. – Disse com uma estranha tristeza no olhar.
- Então era porquê? – Perguntei desconfiado e incomodado com a cara do rapaz.
- Sabes, nós conhecíamos a Luísa lá da escola. Andava sempre sozinha, mas isso era porque gostava muito de ler e de ser ela própria e aqui ninguém tem paciência para conhecer quem não seja da mesma onda. Mas mesmo assim gostávamos dela. Mais que uma vez nos safou trocos para um maço de tabaco. Dizia que ainda nos havia de matar. – Explicou-me
- Espera lá – Disse com o estômago estranhamente nervoso – Porquê é que estas a falar da Luísa no passado? –Perguntei genuinamente confuso.
- Era por isso que estava a correr atrás de ti. A Luísa teve um acidente de carro ontem à tarde. Ela e a mãe acabaram por morrer. – Disse sem conseguir olhar para mim.
            Não esbocei qualquer resposta. Sabia que era estranho não ter notícias dela, mas pensei que estava sem saldo ou algo parecido. Talvez até de castigo por ter discutido com o pai no início da semana. Mas morta? Corri o mais depressa que pude para longe do augúrio da desgraça que tinha sido aquele rapaz. Fui até à casa dela, e o que vi. Não tenho palavras para descrever. À frente do portão da casa, estavam várias coroas de flores. Fotos da Luísa e de uma senhora que compreendi ser a sua mãe. As lágrimas que corriam pelo meu rosto em nada se comparavam ao vazio que sentia dentro de mim. Só conseguia pensar no beijo que não lhe tinha dado e nas brincadeiras que tinha tido medo de ter. Pensei em tudo o que perdi por não ter coragem. Foi o meu primeiro amor. Dizem que é único, tenho a certeza que não amarei mais ninguém como amei aquele anjo de olhos castanhos e sorriso de mel. Como me arrependo agora de não ter arriscado ser feliz. 


Por: Miguel Brito

27 de outubro de 2010

Um conto para um Corvo aniversariante

Parabéns Fiacha! E muito obrigado por tu e o autor anónimo do conto me terem deixado publicá-lo aqui.


Conto:



O sol desaparecia na linha do horizonte, quando os guardas junto da porta da cidade
avistaram alguém. Examinaram a figura que se aproximava com um olhar perscrutador,
quase de pálpebras cerradas; tratava-se de um solitário sobre o dorso de um garanhão de
pêlo lustroso.
O desconhecido refreou a montada, quando as lanças dos guardas se cruzaram na sua
frente, impedindo a sua entrada na cidade.
- O que te traz aqui forasteiro? – Perguntou um dos guardas.
- Estou apenas de passagem. Não vim para arranjar problemas, apenas procuro um
quarto para pernoitar.
Os guardas entreolharam-se e permitiram a passagem daquele homem, cuja capa
empoeirada escondia a espada que carregava.
À medida que percorria as ruas da cidade, aquele homem sentia os olhares curiosos
lançados por aqueles com quem se cruzava.
Não tardou a encontrar o que procurava; Uma tabuleta com um corvo negro
desenhado, baloiçava quando tocada pelo vento sobre a porta de uma taberna.
Apeou-se. O ruído proveniente do interior da taberna era ensurdecedor. Com passos
seguros avançou para a porta que empurrou, entrando. O fumo dos charutos e cigarros
impregnava o ar tornando-o abafado, quase irrespirável.
Dirigiu-se ao balcão.
- Uma caneca de rum – pediu.
O taberneiro, um homem alto, magro de queixo proeminente e pele pálida colocou
uma caneca à sua frente.
- Nunca o tinha visto por cá… - referiu enquanto enchia a caneca.
Aquele homem manteve-se em silêncio, como se não tivesse escutado as palavras que
lhe haviam sido dirigidas. Pelo canto do olho fixava algo ou alguém.
- Chamam-lhe o Melga – Ouviu.
Agarrou na caneca levando-a aos lábios para beber um trago. Ao pousá-la olhou
directamente nos olhos do taberneiro.
- O que sabe sobre ele?
O taberneiro olhou disfarçadamente para um canto sombrio onde se encontrava um
homem que trajava de negro. Sentada no seu colo estava uma mulher de longos cabelos
loiros e vestido vermelho.
- Chegaram há pouco tempo à cidade. Ouvi rumores que armaram confusão numa
outra taberna. Parece que um tipo se meteu com a mulher – tornou a encarar aquele com
quem falava – Farejo sarilhos e acredite que isso é tudo o que aqueles dois cheiram.
O forasteiro tirou do bolso duas moedas de prata, que atirou para cima do balcão
dizendo que era para cobrir os prejuízos. Antes que o estalageiro pudesse colocar-lhe
qualquer pergunta, pegou na caneca, dirigindo-se para a mesa do casal.
- Desta vez foi mais difícil seguir-te o rasto, Melga – disse pousando a caneca sobre
a mesa.
Aquele a quem ele dirigira aquelas palavras esboçou um sorriso trocista.
- Será que não desistes, Fiacha Sun?
O recém-chegado puxou de uma cadeira, sentando-se de frente para o outro.
- Jurei que te ia levar para forca a que foste condenado e garanto-te que o farei.
A mulher inclinou-se sobre a mesa, permitindo a Fiacha ver os seus volumosos seios.
- Estás a ser desmancha-prazeres – disse com uma voz sedutora.
- Tens duas escolhas ou voltas comigo a bem, ou serei forçado a levar-te à força –
foram as únicas palavras de Fiacha, ignorando a loira.

Aquele que era conhecido por Melga soltou uma gargalhada estridente, afastando a
mulher do seu colo.
- Nunca me levarás de volta àquela cela – afirmou levantando-se.
Fiacha desviou-se da cadeira que o outro arremessou contra si, antes de puxar da sua
espada travando a investida daquele que perseguia sem descanso há várias semanas,
depois de este ter escapado da prisão.
Rapidamente alguns homens se aproximaram com facas na mão. Fiacha lançou-lhes
um olhar cortante que os fez recuar; afinal aquela luta não era deles.
- Nunca me apanharás! – Melga afastou a sua espada do contacto com a de Fiacha
para desferir nova estocada.
Fiacha travou facilmente a investida do oponente e num movimento veloz ripostou.
Uma chuva de fagulhas incandescentes espalhou-se pelo ar aquando do contacto das
lâminas de aço.
- Não me consegues vencer – disse.
A cólera apoderou-se de Melga, que tornou a investir uma e outra vez contra Fiacha.
Mas por mais que o tentasse, era incapaz de desferir um golpe que ceifasse a vida do
oponente, que de alguma forma parecia ser capaz de antecipar todos os movimentos do
adversário, travando-os sem dificuldade.
A loira olhou em redor. Tinha de ajudar Melga. Agarrou numa outra cadeira
avançando para Ficha.
Os lábios de Fiacha alongaram-se num sorriso. Baixou-se ao mesmo tempo que a
mulher arremessava a cadeira contra ele.
Num movimento rápido, Fiacha rodou sobre os calcanhares enlaçando a cintura da
loira para a puxar contra o seu corpo.
- Mereces uma vida melhor que esta – segredou-lhe antes de a empurrar para longe.
Quando olhou em frente Melga tinha desaparecido. Procurou-o, vendo-o deixar a
taberna.
- Raios! – Vociferou partindo no seu encalço.
As sombras da noite já engoliam a cidade. Melga corria pelas ruas empurrando
violentamente todos aqueles que cruzavam o seu caminho. Fiacha seguia-o. Melga tirara
a vida de inocentes e não ia permitir que não pagasse pelo seu crime.
Melga estacou ao deparar-se com um beco sem saída. Num impulso rodou sobre si.
O seu coração pulsava acelerado.
- Acabou, desta vez não tens por onde fugir nem ninguém para te ajudar – disse
Fiacha.
- Maldito! – Gritou Melga, apertando o punho da espada.
Fiacha seguia-o sem descanso, a única forma de se ver livre dele de uma vez por
todas era acabando com a sua vida.
- Morre! – Berrou.
Os olhos de Fiacha semicerraram-se seguindo o adversário que corria na sua direcção
com a espada em riste.
A espada de Melga cortou o ar visando o peito do oponente. Um grito ecoou pelo
beco. A mulher de cabelos loiros viu a espada de Melga ser-lhe arrancada da mão com
um golpe firme e preciso. Fiacha endireitou-se fixando o rosto daquele que desarmara e
que recuava com uma expressão de medo na face.
- Chegou a hora de pagares pelo teu crime – disse avançando para Melga que
se deixava cair de joelhos como se tivesse finalmente percebido que não havia fuga
possível.
Os punhos da loira cerraram-se. Correu para Fiacha saltando-lhe para as costas. Um
dos seus braços apertou-se em redor do pescoço deste, numa tentativa de o sufocar.
- Foge! - Gritou para Melga.

Este não hesitou. Fiacha puxou de uma faca presa ao cinto ao mesmo tempo que
recuava contra a parede, fazendo a loira chocar violentamente contra esta.
- Não vais tornar a escapar – disse atirando a faca que se entranhou numa das pernas
de Melga.
Libertou-se da loira, que caiu gemendo e aproximou-se com passos lentos do homem
que tentava tirar a faca da perna.
- Eu disse-te que não ias escapar.
Pouco depois Fiacha Sun deixava a cidade, levando Melga amarrado na garupa do
seu cavalo de volta à aldeia onde a forca o esperava pelos crimes que cometera.

26 de outubro de 2010

O Anjo Branco



Sinopse:


A vida de José Branco mudou no dia em que entrou naquela aldeia perdida no coração de África e se deparou com o terrível segredo. O médico tinha ido viver na década de 1960 para Moçambique, onde, confrontado com inúmeros problemas sanitários, teve uma ideia revolucionária: criar o Serviço Médico Aéreo. 

No seu pequeno avião, José cruza diariamente um vasto território para levar ajuda aos recantos mais longínquos da província. O seu trabalho depressa atrai as atenções e o médico que chega do céu vestido de branco transforma-se numa lenda no mato. 

Chamam-lhe o Anjo Branco. 

Mas a guerra colonial rebenta e um dia, no decurso de mais uma missão sanitária, José cruza-se com aquele que se vai tornar o mais aterrador segredo de Portugal no Ultramar. 

Inspirado em factos reais e desfilando uma galeria de personagens digna de uma grande produção, O Anjo Branco afirma-se como o mais pujante romance jamais publicado sobre a Guerra Colonial - e, acima de tudo, sobre os últimos anos da presença portuguesa em África.

Novas fotos da minha estante


Ficam aqui algumas fotos actualizadas da minha estante. Espero que gostam. 









Roger

Anos, demorou anos para tomar esta decisão. Enquanto olhava para a parede do passado que tinha na sua caravana interestelar, Roger podia ver todas as imagens importantes da sua vida. Enquanto revia as imagens do seu casamento, não podia deixar de comparar o homem das fotos com o de hoje. Os olhos ainda eram castanhos, mas a magoa que neles vivia, era assustadora. O seu cabelo ainda era preto, mas bastante comprido, formava uma trança que prendia com um pedaço de lenço vermelho que tinha pertencido à sua mulher.  Depois de tudo o que tinha acontecido, não a conseguia odiar. Ela refez a sua vida, ele apenas procurou o passado. Era bonito que pensasse assim, mas na verdade era apenas mais uma mentira. Na terra sempre se disse que o amor e o ódio estão separados por uma linha muito ténue, neste caso a linha é outro homem e um filho. Não tão ténue assim. Tinha vontade de falar com alguém, mas apenas Zedorm, o seu antigo dono, parecia estar disponível para ele. Por muito que tivesse sido um bom amigo, lhe tivesse dito onde estava Anna, e lhe tivesse dado o compasso mágico, nunca lhe conseguiu perdoar a escravatura. Todos os seres que tinha encontrado, apenas alimentavam o seu ódio por tudo o que era a sua vida. Aquele caranguejo peludo tinha boas intenções, mas não era mais que o recordar de um pesadelo do qual nunca acordou. Foi sentar-se na cadeira de comando, nunca pensou conduzir uma nave espacial, muito menos com um capacete que o fazia por controlo mental. Mas ali estava ele, a vaguear pelo espaço como fazia há muitos anos. Não tinha um destino, não tinha para onde regressar. Ainda tinha pensado em visitar a terra, mas soube que a Lua foi destruída para aproveitar um minério raro no universo e que tal destrui a Terra. Não chorou nesse dia. Já não tinha lágrimas. Numa das suas viagens, olhou para aquilo que na Terra se chamava de buraco negro. Sentia-se de alguma forma atraído para ele, não o sabia explicar. Talvez estivesse com uma depressão, mas já não havia psicólogos a quem recorrer. Suspirou, e olhou para a sua nave, era surreal. Era como um parque de diversões, onde as zonas para comer e dormir eram tão estranhas que nem pareciam funcionais. A sua cama, ou espécie de, era uma esfera com um líquido vermelho, tinha propriedades relaxantes e energéticas. Duas horas garantiam um descanso indiscritível. Tinha um controlo remoto, onde podia escolher o que sonhar, ou se bloqueava os sonhos. Há anos que esta servia para os bloquear. A sua cozinha era ainda mais indiscritível. Só tinha de se deitar numa superfície rectangular de cor esverdeada, pensar no que gostaria de comer, e imediatamente sentia o sabor dessa refeição. Duas seringas tratavam de se ligar ao corpo para injectar os nutrientes necessários para o bom funcionamento do mesmo. Era a cura para a obesidade sem abdicar das pizzas, perfeito. Mas tudo o que Roger comia era bolo de casamento. Já não aguentava mais a pressão, lágrimas que já não tinha criavam enxaquecas terríveis. Era uma vida triste e solitária. Foi então que tudo fez um terrível sentido na sua cabeça, estava farto. Pronto para ir embora, tudo havia de ser melhor que esta vida. Nunca tinha acreditado muito em Deus, muito menos depois de ter visto o que vinha realmente do céu. Mas até o inferno seria melhor a uma existência tão solitária. Só tinha do pensar. Ligou o capacete dos comandos, sentou-se numa espécie de pufe amarelo, feito de um material que nunca tinha visto, mas que proporcionava um conforto fantástico. Zedorm tinha proporcionado todos estes luxos, mas mesmo assim não era com um sorriso que relembrava o seu comprador. Buraco negro. As duas palavras mágicas que surgiram na sua cabeça e em segundos, estava a caminho de um. Ao chegar ao destino pensado, percebeu que nunca tinha tido dúvidas. As cores que circundavam a entrada eram de uma beleza hipnotizante, mas a última vez que uma cor o fez, foi o verde dos olhos da Anna. Pensou apenas em entrar. Nem um nervoso miudinho se apoderou dele. Ao entrar a descarga eléctrica que a nava sofreu foi avassaladora. Enquanto sentia tudo a girar, podia ver um milhão de cores diferentes, raios eléctricos que tão depressa eram azuis como eram verdes, era energia pura. O que se passou a seguir, foi incrível. Em vez da morte que esperava, viu apenas um céu estrelado. A nava descontrolou-se e partiu ao meio, era de titânio, não era suposto. Entrou em queda livre, sentia o ar a tornar a respiração pesada. O desespero tomou pela primeira vez conta dele. Enquanto o mundo se tornava mais rápido à sua volta não conseguiu ignorar uma rocha flutuante com árvores de um púrpura brilhante. Foi tudo o que viu, perdeu a visão segundos antes de perder os sentidos, a última coisa que pensou foi que era uma pena morrer sem ver aquelas árvores de perto. Na verdade não sabia que ia viver naquelas rochas…

Por: Miguel Brito

Invasão

Amor. É nisto que se centra esta história. Começa há vinte anos atrás, ou na verdade vinte e cinco. Roger era um jovem de uma beleza subtil. Olhos castanhos, quase cor de âmbar, contrastavam com a sua pele branca. Os seus cabelos pretos tornavam a sua cara algo engraçado de se ver, uma mistura que não era harmoniosa, mas agradável. Tinha conhecido Anna num café, os seus olhos verdes tinham sido a sua perdição. A pele morena, que realçava a beleza do seu cabelo ruivo, tinha um tom mágico. Ficou apaixonado quando a viu, quem não ficaria? Uma ou outra frase de engate, um número de telemóvel trocado. Quantos de nós já não ouvimos esta história? Bem o resultado final é que cinco anos depois estavam casados, felizes e mais apaixonados que nunca. Mas o dia I chegou. Numa manhã calma, Roger e Anna viram a vida mudar completamente. O céu azul ficou por momentos negro, as naves extraterrestres estavam a atacar a terra. Não tivemos qualquer hipótese. Em menos de uma semana todos nós éramos escravos. Lembro-me que o Roger me disse que apertou as mãos da Anna com tanta força, que tinha medo de a ter magoado, mas foram separados. Após ter sido colocado na nave escura e fria onde milhares de outros homens estavam, Roger chorou. Tal como todos os outros foi colocado nu, numa gigantesca arena. Penso que me disse que se parecia com um campo de futebol sem balizas. Um a um foram arrastados para o estrado onde decorria o leilão. Formas tão estranhas como humanóides cor-de-rosa com três olhos ou espectros sem carne mas com forma ofereciam dinheiro pelos escravos. Na altura Roger não sabia que eu estava entre os compradores. Quando vi aquele jovem, pensei que tinha uma expressão triste. Na altura não percebi que todos a tinham, o seu mundo tinha acabado, nunca tinham tido uma prova da existência de outros seres e de um dia para o outro estavam a ser escravizados por eles. Famílias destruídas e esperanças para sempre perdidas. Ao ouvir a apresentação deste escravo, disseram que era professor de história. Pensei que seria o escravo certo para me contar tudo sobre este povo. Licitei, e como havia milhões de escravos, o valor que paguei foi baixo. Na verdade sei hoje que paguei uma ninharia por um amigo tão valioso. Roger ficou com medo quando me viu. Um dia disse-me que a primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que eu era um caranguejo peludo como uma aranha com olhos de águia. Até hoje não sei se foi um elogio. Estivemos juntos três anos. Foi o suficiente para que ele me contasse toda a história do seu povo nunca me vou esquecer da forma estranha como se sentava naquilo a que chamava de sofá e com os olhos muito vivos me explicava tudo mentalmente. Os humanos são curiosos, destrutivos e perigosos. Mas quando amam, ensinam ao universo como se faz. Ao final da última história, pela qual confesso que me senti envergonhado, o dia I como lhe chamava, o dia da Invasão, acabei por lhe conceder a liberdade. Foi o primeiro humano livre em todo o universo. Dei-lhe muito dinheiro, penso que é assim que lhe chamava o Roger. Ele comprou uma nave espacial. Último modelo. Dizia que era a sua caravana interestelar. Sei que procurou Anna durante anos, ele não sabia que mesmo aos olhos dos da minha raça, o meu tempo estava a terminar. Então envergonhado por todo o seu sofrimento descobri onde estava Anna. Pertencia ao Klugh, chefe da raça detestável dos Miltrork, conhecido como o Coleccionador. Este tipo era estranho mesmo para mim, tinha cinco cabeças, unidas a um corpo com mais de três metros de altura. Os seus quatro braços eram capazes de tão depressa partir uma rocha de titânio como retirar os espinhos a uma rosa terrestre. Através do teleporte visitei por uma última vez Roger. Disse-lhe onde podia encontrar Anna, e ofereci-lhe uma prenda muito especial. Quando não soubesse o que fazer, a prenda faria por ele. Penso que não me percebeu. Sempre me considerou muito exótico, não deve ter sido fácil durante anos ter conversas dentro da sua própria mente, visto que não sou capaz de comunicar por aquilo a que vocês chamam palavras. Também não podia ouvir as mesmas. Não tenho ouvidos. Roger dizia-me que se pudesse ouvir música iria perceber quanto são especiais os humanos. Na verdade ter conhecido Roger mostrou-me precisamente isso. Não o soube por ele, mas sei que viajou até à estrela azulada de Klother onde o Coleccionador vivia. Sei que o seu palácio estava protegido por um alarme de defesa mágico onde as paredes ásperas evitavam a entrada aos intrusos, labirinto, era essa a palavra que Roger usava para descrever algo difícil de encontrar a saída, como o do Minotauro. A prenda que lhe dei era um objecto que permitia desenhar uma porta circular, que tinha o poder de abrir o caminho através de toda a magia e protecções do universo. Todo o meu dinheiro foi gasto nisto, e lembro-me que o Roger olhou para mim e me perguntou para que iria precisar ele de um compasso. Sei que descobriu para o que servia. Sei que encontrou Anna. E sei que isso foi o seu maior desgosto. Foi-me dito por um membro do palácio do klugh. Ao que parece Anna conheceu outro humano escravizado enquanto estava em Klother. Esqueceu o meu fiel companheiro e formou nova família com o tal humano. Não quero pensar nas lágrimas, nome curioso para a água dos olhos, que Roger derramou ao ver aqueles olhos verdes a recusarem todo o propósito da sua busca. Por Amor, Roger fugiu, sei que vagueou sozinho pelo universo durante anos, sei que mais tarde se dirigiu a um buraco negro e sem hesitações transpôs o mesmo. Posso apenas imaginar o que sofreu nos últimos anos, mas com ele aprendi o que significa ser “humano”. Está é a última entrada que faço no vídeo blog, com o aparelho de tradução terrestre. Quero que todos conheçam a sua vida, e o quanto ele amou e sofreu. Se o céu dos humanos existir espero mais tarde estar a conversar com o meu melhor amigo. Outra palavra que aprendi com aquele que um dia foi meu escravo.

Por: Miguel Brito