26 de outubro de 2010

Roger

Anos, demorou anos para tomar esta decisão. Enquanto olhava para a parede do passado que tinha na sua caravana interestelar, Roger podia ver todas as imagens importantes da sua vida. Enquanto revia as imagens do seu casamento, não podia deixar de comparar o homem das fotos com o de hoje. Os olhos ainda eram castanhos, mas a magoa que neles vivia, era assustadora. O seu cabelo ainda era preto, mas bastante comprido, formava uma trança que prendia com um pedaço de lenço vermelho que tinha pertencido à sua mulher.  Depois de tudo o que tinha acontecido, não a conseguia odiar. Ela refez a sua vida, ele apenas procurou o passado. Era bonito que pensasse assim, mas na verdade era apenas mais uma mentira. Na terra sempre se disse que o amor e o ódio estão separados por uma linha muito ténue, neste caso a linha é outro homem e um filho. Não tão ténue assim. Tinha vontade de falar com alguém, mas apenas Zedorm, o seu antigo dono, parecia estar disponível para ele. Por muito que tivesse sido um bom amigo, lhe tivesse dito onde estava Anna, e lhe tivesse dado o compasso mágico, nunca lhe conseguiu perdoar a escravatura. Todos os seres que tinha encontrado, apenas alimentavam o seu ódio por tudo o que era a sua vida. Aquele caranguejo peludo tinha boas intenções, mas não era mais que o recordar de um pesadelo do qual nunca acordou. Foi sentar-se na cadeira de comando, nunca pensou conduzir uma nave espacial, muito menos com um capacete que o fazia por controlo mental. Mas ali estava ele, a vaguear pelo espaço como fazia há muitos anos. Não tinha um destino, não tinha para onde regressar. Ainda tinha pensado em visitar a terra, mas soube que a Lua foi destruída para aproveitar um minério raro no universo e que tal destrui a Terra. Não chorou nesse dia. Já não tinha lágrimas. Numa das suas viagens, olhou para aquilo que na Terra se chamava de buraco negro. Sentia-se de alguma forma atraído para ele, não o sabia explicar. Talvez estivesse com uma depressão, mas já não havia psicólogos a quem recorrer. Suspirou, e olhou para a sua nave, era surreal. Era como um parque de diversões, onde as zonas para comer e dormir eram tão estranhas que nem pareciam funcionais. A sua cama, ou espécie de, era uma esfera com um líquido vermelho, tinha propriedades relaxantes e energéticas. Duas horas garantiam um descanso indiscritível. Tinha um controlo remoto, onde podia escolher o que sonhar, ou se bloqueava os sonhos. Há anos que esta servia para os bloquear. A sua cozinha era ainda mais indiscritível. Só tinha de se deitar numa superfície rectangular de cor esverdeada, pensar no que gostaria de comer, e imediatamente sentia o sabor dessa refeição. Duas seringas tratavam de se ligar ao corpo para injectar os nutrientes necessários para o bom funcionamento do mesmo. Era a cura para a obesidade sem abdicar das pizzas, perfeito. Mas tudo o que Roger comia era bolo de casamento. Já não aguentava mais a pressão, lágrimas que já não tinha criavam enxaquecas terríveis. Era uma vida triste e solitária. Foi então que tudo fez um terrível sentido na sua cabeça, estava farto. Pronto para ir embora, tudo havia de ser melhor que esta vida. Nunca tinha acreditado muito em Deus, muito menos depois de ter visto o que vinha realmente do céu. Mas até o inferno seria melhor a uma existência tão solitária. Só tinha do pensar. Ligou o capacete dos comandos, sentou-se numa espécie de pufe amarelo, feito de um material que nunca tinha visto, mas que proporcionava um conforto fantástico. Zedorm tinha proporcionado todos estes luxos, mas mesmo assim não era com um sorriso que relembrava o seu comprador. Buraco negro. As duas palavras mágicas que surgiram na sua cabeça e em segundos, estava a caminho de um. Ao chegar ao destino pensado, percebeu que nunca tinha tido dúvidas. As cores que circundavam a entrada eram de uma beleza hipnotizante, mas a última vez que uma cor o fez, foi o verde dos olhos da Anna. Pensou apenas em entrar. Nem um nervoso miudinho se apoderou dele. Ao entrar a descarga eléctrica que a nava sofreu foi avassaladora. Enquanto sentia tudo a girar, podia ver um milhão de cores diferentes, raios eléctricos que tão depressa eram azuis como eram verdes, era energia pura. O que se passou a seguir, foi incrível. Em vez da morte que esperava, viu apenas um céu estrelado. A nava descontrolou-se e partiu ao meio, era de titânio, não era suposto. Entrou em queda livre, sentia o ar a tornar a respiração pesada. O desespero tomou pela primeira vez conta dele. Enquanto o mundo se tornava mais rápido à sua volta não conseguiu ignorar uma rocha flutuante com árvores de um púrpura brilhante. Foi tudo o que viu, perdeu a visão segundos antes de perder os sentidos, a última coisa que pensou foi que era uma pena morrer sem ver aquelas árvores de perto. Na verdade não sabia que ia viver naquelas rochas…

Por: Miguel Brito
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