26 de outubro de 2010

Invasão

Amor. É nisto que se centra esta história. Começa há vinte anos atrás, ou na verdade vinte e cinco. Roger era um jovem de uma beleza subtil. Olhos castanhos, quase cor de âmbar, contrastavam com a sua pele branca. Os seus cabelos pretos tornavam a sua cara algo engraçado de se ver, uma mistura que não era harmoniosa, mas agradável. Tinha conhecido Anna num café, os seus olhos verdes tinham sido a sua perdição. A pele morena, que realçava a beleza do seu cabelo ruivo, tinha um tom mágico. Ficou apaixonado quando a viu, quem não ficaria? Uma ou outra frase de engate, um número de telemóvel trocado. Quantos de nós já não ouvimos esta história? Bem o resultado final é que cinco anos depois estavam casados, felizes e mais apaixonados que nunca. Mas o dia I chegou. Numa manhã calma, Roger e Anna viram a vida mudar completamente. O céu azul ficou por momentos negro, as naves extraterrestres estavam a atacar a terra. Não tivemos qualquer hipótese. Em menos de uma semana todos nós éramos escravos. Lembro-me que o Roger me disse que apertou as mãos da Anna com tanta força, que tinha medo de a ter magoado, mas foram separados. Após ter sido colocado na nave escura e fria onde milhares de outros homens estavam, Roger chorou. Tal como todos os outros foi colocado nu, numa gigantesca arena. Penso que me disse que se parecia com um campo de futebol sem balizas. Um a um foram arrastados para o estrado onde decorria o leilão. Formas tão estranhas como humanóides cor-de-rosa com três olhos ou espectros sem carne mas com forma ofereciam dinheiro pelos escravos. Na altura Roger não sabia que eu estava entre os compradores. Quando vi aquele jovem, pensei que tinha uma expressão triste. Na altura não percebi que todos a tinham, o seu mundo tinha acabado, nunca tinham tido uma prova da existência de outros seres e de um dia para o outro estavam a ser escravizados por eles. Famílias destruídas e esperanças para sempre perdidas. Ao ouvir a apresentação deste escravo, disseram que era professor de história. Pensei que seria o escravo certo para me contar tudo sobre este povo. Licitei, e como havia milhões de escravos, o valor que paguei foi baixo. Na verdade sei hoje que paguei uma ninharia por um amigo tão valioso. Roger ficou com medo quando me viu. Um dia disse-me que a primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que eu era um caranguejo peludo como uma aranha com olhos de águia. Até hoje não sei se foi um elogio. Estivemos juntos três anos. Foi o suficiente para que ele me contasse toda a história do seu povo nunca me vou esquecer da forma estranha como se sentava naquilo a que chamava de sofá e com os olhos muito vivos me explicava tudo mentalmente. Os humanos são curiosos, destrutivos e perigosos. Mas quando amam, ensinam ao universo como se faz. Ao final da última história, pela qual confesso que me senti envergonhado, o dia I como lhe chamava, o dia da Invasão, acabei por lhe conceder a liberdade. Foi o primeiro humano livre em todo o universo. Dei-lhe muito dinheiro, penso que é assim que lhe chamava o Roger. Ele comprou uma nave espacial. Último modelo. Dizia que era a sua caravana interestelar. Sei que procurou Anna durante anos, ele não sabia que mesmo aos olhos dos da minha raça, o meu tempo estava a terminar. Então envergonhado por todo o seu sofrimento descobri onde estava Anna. Pertencia ao Klugh, chefe da raça detestável dos Miltrork, conhecido como o Coleccionador. Este tipo era estranho mesmo para mim, tinha cinco cabeças, unidas a um corpo com mais de três metros de altura. Os seus quatro braços eram capazes de tão depressa partir uma rocha de titânio como retirar os espinhos a uma rosa terrestre. Através do teleporte visitei por uma última vez Roger. Disse-lhe onde podia encontrar Anna, e ofereci-lhe uma prenda muito especial. Quando não soubesse o que fazer, a prenda faria por ele. Penso que não me percebeu. Sempre me considerou muito exótico, não deve ter sido fácil durante anos ter conversas dentro da sua própria mente, visto que não sou capaz de comunicar por aquilo a que vocês chamam palavras. Também não podia ouvir as mesmas. Não tenho ouvidos. Roger dizia-me que se pudesse ouvir música iria perceber quanto são especiais os humanos. Na verdade ter conhecido Roger mostrou-me precisamente isso. Não o soube por ele, mas sei que viajou até à estrela azulada de Klother onde o Coleccionador vivia. Sei que o seu palácio estava protegido por um alarme de defesa mágico onde as paredes ásperas evitavam a entrada aos intrusos, labirinto, era essa a palavra que Roger usava para descrever algo difícil de encontrar a saída, como o do Minotauro. A prenda que lhe dei era um objecto que permitia desenhar uma porta circular, que tinha o poder de abrir o caminho através de toda a magia e protecções do universo. Todo o meu dinheiro foi gasto nisto, e lembro-me que o Roger olhou para mim e me perguntou para que iria precisar ele de um compasso. Sei que descobriu para o que servia. Sei que encontrou Anna. E sei que isso foi o seu maior desgosto. Foi-me dito por um membro do palácio do klugh. Ao que parece Anna conheceu outro humano escravizado enquanto estava em Klother. Esqueceu o meu fiel companheiro e formou nova família com o tal humano. Não quero pensar nas lágrimas, nome curioso para a água dos olhos, que Roger derramou ao ver aqueles olhos verdes a recusarem todo o propósito da sua busca. Por Amor, Roger fugiu, sei que vagueou sozinho pelo universo durante anos, sei que mais tarde se dirigiu a um buraco negro e sem hesitações transpôs o mesmo. Posso apenas imaginar o que sofreu nos últimos anos, mas com ele aprendi o que significa ser “humano”. Está é a última entrada que faço no vídeo blog, com o aparelho de tradução terrestre. Quero que todos conheçam a sua vida, e o quanto ele amou e sofreu. Se o céu dos humanos existir espero mais tarde estar a conversar com o meu melhor amigo. Outra palavra que aprendi com aquele que um dia foi meu escravo.

Por: Miguel Brito
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