19 de janeiro de 2014

Entrevista a Pedro Garcia Rosado



O próximo entrevistado é Pedro Garcia Rosado. Autor das séries policiais "O Estado do Crime", "Não Matarás" e "As Investigações de Gabriel Ponte", que usam sempre como pano de fundo a realidade portuguesa e que abordam temas polêmicos. 

Quero agradecer ao Pedro Garcia Rosado a disponibilidade para fazer esta entrevista. 

O próximo livro, "Morte nas Trevas", vai ser publicado em Maio, e já tem a partcipação confirmada de Joel Franco e Ulianov. 



O Estado do Crime


- Gabriel Ponte e Joel Franco são dois protagonistas dos seus livros. Como é que os criou? Qual as principais diferenças entre eles?

A literatura policial requer, normalmente, um investigador criminal como herói, ou como protagonista principal. A legislação portuguesa comete essa função, no que se refere ao crime de homicídio (que é o elemento fundamental de qualquer história deste género literário), à Polícia Judiciária. A criação de uma série, de várias histórias com um protagonista fixo, requeria um investigador criminal e ele devia ser, inevitavelmente, um inspector da PJ, da Secção de Homicídios, de preferência com experiência noutras áreas para o âmbito das histórias poder ser alargado. Foi desse modo que nasceu Joel Franco, como um investigador bem integrado no sistema, e com base na recolha de informações sobre as circunstâncias reais da actividade da PJ. Quando a série “Não Matarás” ficou parada, por motivos que me são alheios, não quis fazer um “clone” de Joel Franco e nasceu então a figura de Gabriel Ponte, como uma espécie de inspector de algum modo renegado. Gabriel Ponte tem maior liberdade de movimentos (e talvez precise dela se começar a investigar alguns casos por conta própria...) mas Joel Franco, apesar de ser um homem mudado e de certa forma revoltado, continua na PJ, como investigador. E os seus caminhos vão cruzar-se.

- Usa sempre Portugal como cenário principal dos seus livros, porque essa aposta?

Quando pensei em escrever histórias, e de acordo com as minhas preferências literárias (nessa altura na área do fantástico), pensei que seria impossível encontrar cenários para histórias de mistério, ou de crime, num país tão pequeno como Portugal. Mas depois, quando a certa altura, pensei em começar a desenvolver uma história com a dimensão de poder ser livro, se tivesse qualidade para tal, percebi que havia espaço, geográfico e não só, para contar histórias passadas no nosso país, aproveitando cenários que conhecia, como foi o caso do Alentejo, em “Crimes Solitários”, o meu primeiro “thriller”, em 2004. Dez anos depois continuo a pensar que a realidade geográfica e social é óptima para muitas histórias – Caldas da Rainha, em cujo concelho vivo, já forneceu cenários para “O Clube de Macau” (2007), “A Guerra de Gil” (2008), “Triângulo” (2012), “Morte com Vista para o Mar” (2013) e agora “Morte nas Trevas” (2014). E Lisboa e os seus subúrbios têm muito que explorar e aproveitei a cidade para “Ulianov e o Diabo” (2006), “A Cidade do Medo” (2010), “Vermelho da Cor do Sangue” (2011) e “Morte na Arena” (2013). E em 2015 talvez Gabriel Ponte vá até ao Alentejo...





- Nos seus livros aborda diversos assuntos polêmicos como a corrupção, emigração ilegal e o tráfico de influências, acha que a nossa realidade é assim tão negra?

Não é, mas a literatura policial tem de viver desses aspectos mais sombrios da sociedade e eles existem. Eu recolho a inspiração, principalmente, do que vou vendo nos jornais e essa realidade portuguesa mais sórdida tem sido tratada com toda a plausibilidade, o que é essencial, respeitando a fronteira entre a ficção e a reportagem mas aceitando que a vida real e os seus protagonistas invadam as minhas histórias.

Além de ser escritor, você também é tradutor, quais são os livros que mais gostou de traduzir?

Retenho cinco, dos cerca de cinquenta que já traduzi desde 2007: o mais recente foi o primeiro volume de “The Story of de the Jew”, do historiador Simon Schama (Temas e Debates), que é uma obra admirável sobre o judaísmo e os judeus; “Tríptico”, de Karin Slaughter (Topseller), um “thriller” perfeito que eu já tinha lido há vários anos e que redescobri ao traduzir; “Cada Dia, Cada Hora”, da romancista croata Nataša Dragnić (Porto Editora), uma bela história de amor; “Cornos”, de Joe Hill (1001 Mundos), uma combinação notável de uma história de amor com uma história de terror; e “Aliança”, do jornalista Jonathan Fenby (Quid Novi), um relato empolgante sobre a aliança Roosevelt – Churchill – Estaline.;


Não Matarás


- Para si, qual é a importância dos blogues na divulgação de livros?

O desaparecimento da crítica literária objectiva e independente de modas e favoritismos da imprensa, em geral, deixou um abismo difícil de atravessar – como é que os livros que vão saindo chegam ao conhecimento do público com uma opinião alheia aos editores e aos autores? Os blogues literários estão a cumprir essa função e da melhor maneira: os seus autores estão a ler, de acordo com as suas preferências literárias, e estão a dar opinião. E estão mais acessíveis – “on line”. Penso que os blogues literários poderão evoluir, pelo menos alguns, para sites mais estruturados sobre livros e, inclusivamente, encontrarem alguma forma de se sustentarem, alargando ainda mais a sua intervenção. E há mais: os seus autores, porque gostam de ler e têm opinião sobre aquilo de que gostam e não gostam, poderão estar até melhor preparados do que os jornalistas que, em alguns casos, parecem, parecem mais permeáveis a editoras do que a autores e géneros literários, sem memória e sem conhecimentos.

- De onde nasceu o seu interesse pela literatura?

Sempre me lembro de ter livros em casa, desde que comecei a ler, desde aventuras juvenis (de René Guillot, Jules Verne, Edgar Rice Burroughs, Emilio Salgari) aos géneros que depois fui procurar por interesse própria (fantástico, FC, mais tarde o policial, a banda desenhada franco-belga mas também a americana). E depois fui lendo sempre, com a regularidade com que ia ao cinema. Mesmo com menos tempo há sempre um livro por perto, a ser lido ou à espera de ser lido.


As Investigações de Gabriel Ponte



Quais os seus escritores preferidos?

Actualmente, Carl Hiaasen, Harlan Coben, James Ellroy, John Le Carré, Karin Slaughter, Lee Child (por enquanto...), Stephen King (às vezes) e a grande, muito grande, Ruth Rendell.

- Já tem mais projectos em mente?

A série começada com “Morte com Vista para o Mar”, com Gabriel Ponte, já me ocupa bastante (o quarto livro da série sairá em 2015, tendo para já “A Morte da Honra” como “working title”) e há uma convergência e uma cumplicidade muito grandes com a Topseller, que muito me agrada, quanto à sua continuação, enquanto tal for possível. Mas tenho em mente escrever um romance, diferente no estilo, sobre o jornalismo e os jornalistas. Dos meus mais de vinte anos como jornalista reuni muitas histórias, pessoais e outras, que podem dar um bom romance, quando passadas para o quadro de crise em que a Imprensa vive.
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