29 de outubro de 2010

Amaldiçoado

O amaldiçoado continuava a sua viagem. Trajava um longo manto negro que cobria o seu rosto putrefacto. Quem o visse podia simplesmente confundi-lo com a morte. A maior diferença subsistia no verde-esmeralda que os seus olhos irradiavam.
Com o cajado que auxiliava a subida do monte, entre a erva que lhe toldava os movimentos ao vento que o empurrava de volta, pensava no objectivo final. Era isso que importava. Ao fundo a primeira cidade que via em duas semanas de caminho cansativo.
Aproximou-se das portas da cidade, e foi ignorado pelos guardas que já conheciam a lenda do amaldiçoado. Ninguém falava com ele a menos que fosse estritamente necessário.
Sentiu, como sempre, o poço dos desejos. Caminhou até ele. O pequeno tanque tinha pouca água e poucas moedas. Tinha musgo no fundo e a sua cor era turva. Escolheu a moeda mais valiosa. Era o seu ritual, quanto mais tivesses dispostos a pagar por um desejo maior o seu direito era ao mesmo. Recuperou a moeda, aperto-a e desapareceu.
Encontrou um jovem sentado num muro. Quando alguém era seleccionado pelo amaldiçoado era levado para o seu lugar feliz. Lá seria feita a proposta, a recolha e o pagamento.
- O que desejas rapaz? – Perguntou o amaldiçoado ao jovem de cara simples e bonita.
- Desejo ser outra pessoa. Porque me procuras amaldiçoado? – Respondeu e perguntou o jovem.
- Porque o teu desejo é valioso. Porque tu queres algo e eu preciso de algo. – Respondeu honestamente o amaldiçoado
- Quero ser uma mulher.- Respondeu o jovem.
- Desculpa? Em tantos anos que percorro estes caminhos, nunca ninguém me pediu tal coisa. Posso perguntar qual o motivo de tamanho desejo? – Questionou o caminhante
- Porque o amor é uma coisa complicada. Porque amo um homem e não uma mulher. Porque ele me vê como um amigo de farras e me fala das suas conquistas. Porque o quero amar e ser amado. – Respondeu soluçando o jovem.
- Confesso que não compreendo. Mas um desejo é um desejo. – Afirmou o amaldiçoado
Retirou da sua bagagem uma espécie de funil com tampa. Entregou o estranho objecto ao jovem.
- O preço é o último grito de um homem apaixonado. Grita com todas as tuas forças. – Exigiu o amaldiçoado
A proposta foi feita, a recolha foi feita. O pagamento produziu no que antes era um jovem simples e bonito, uma mulher linda. Cabelos castanhos, olhos castanhos. Sorriso doce e afável. Tudo o que ele, agora ela queria. Mais um cliente satisfeito.
A viagem continuou. Atravessou a floresta fresca, convivendo com animais e plantas. Naquele lugar especial não era temido nem odiado.
A próxima cidade chegou mais rápido do que esperava. Sabia que ainda teria mais uma paragem antes do objectivo final estar conseguido. Estes desejos estavam a correr bem. Já tinha quase tudo o que precisava. Avançou até ao poço dos desejos em tudo semelhante ao anterior, escolheu a moeda mais cara e desapareceu.
Ficou admirado quando viu um urso sentado ao pé de um rio. Felizmente tinha a capacidade de falar com os animais. Caso contrário estaria preso até poder realizar o desejo.
- Explica-me o que faz um urso a atirar moedas para um poço de desejos? – Exigiu o amaldiçoado
- Eu não sou um urso. Bem sou mas nem sempre o fui. Antes era um homem, era bonito, rico e poderoso. E para meu azar despedacei o coração de uma bruxa. Transformou-me em urso. – Contou o urso que já tinha sido homem.
- Então queres voltar a ser humano certo? É fácil. – Disse o amaldiçoado
- Não! Os ursos têm mais sorte! Fazem sexo mais vezes, lutam mais vezes e passeiam na floresta. O problema é a concorrência. Quero ser diferente. – Disse o urso
- O que queres na verdade? Cinco patas? – Ironizou o caminhante, pensando no quão estúpido teria sido enquanto humano, aquele urso.
- Quero ser cor-de-rosa. As miúdas gostam. Espero que as ursas também. – Disse o urso enquanto lambia as patas.
- O preço é pelo de animal extinto por vontade própria. – Avisou o amaldiçoado
O caminhante retirou uma tesoura especial da sua bagagem. Pegou num frasco fusco e cortou alguns pelos ao urso. Prontamente guardou os mesmos e viu o urso ganhar uma cor rosada. “Não hás-de durar muito, vais ficar bem numa cabana de caçadores” pensou o homem dos desejos.
Seguiu o seu caminho, sempre de olhos no destino final, no objectivo.
Atravessou a estrada velha e poeirenta que conduzia ao centro do reino. Uma paragem antes e provavelmente com alguma sorte estaria acabada a missão.
Ao entrar na pequena cidade, foi rapidamente para o poço dos desejos. Olhou durante muito tempo para as moedas, por fim lá escolheu uma. Feito o processo do costume, desapareceu.
Numa enorme planície circundante à cidade, encontrou uma jovem sentada num tronco de uma árvore. Estava sentada a olhar para o céu.
- Qual é o teu desejo? – Perguntou o caminhante.
- Quero ser bonita. Quero ser especial. Quero ser recordada. – Disse a jovem
O amaldiçoado percebeu o desejo da jovem. Era a mulher mais feia que tinha visto até hoje. Os seus cabelos loiros eram fracos a apresentavam muitas falhas. Os olhos tinham um azul bonito, mas tinham vontade própria, apontando sempre em direcções diferentes.
- Queres ser a mulher mais bonita da cidade? É fácil tudo o que preciso - Dizia o caminhante até ser interrompido
- Não! Quero ser diferente. Queria ser um arco-íris. Nem que fosse por um dia. Queria que todos olhassem para o céu e admirassem a minha beleza. – Disse envergonhada a jovem
-Mas assim não irás viver. Durarás um dia apenas. – Argumentou o caminhante
- É o meu desejo. O que tenho de pagar? – Perguntou a jovem.
- Nada. Depois recebo o meu pagamento. Vou fazer de ti o mais belo arco-íris de sempre. – Prometeu meio comovido o amaldiçoado.
E assim surgiu nos céus do reino o mais belo arco-íris de sempre. As suas cores possuíam uma beleza indiscritível. Ninguém olhou para o céu sem abençoar o dia em que viu aquele milagre. O amaldiçoado caminhou até à ponta inicial do arco-íris, escavou um pouco e retirou uma moeda de ouro do pote que lá estava. Guardou a moeda num recipiente estranho com forma de cubo.
Assim continuou a viagem até à cidade principal do reino. Ao entrar olhou para o castelo, nostálgico. Estava quase no destino. Encontrou a porta que procurava, abriu. Encontrou o seu velho mestre.
- Já tenho tudo o que preciso. Fazes a poção ainda hoje? – Perguntou o amaldiçoado
- Ainda insistes em tornar possível o teu amor pela rainha? Tu estás morto e condenado a percorrer a terra em busca de ingredientes para as minhas poções, achas que é o tipo de vida que a rainha quer? – Perguntou e argumentou o velho mestre.
- Não me importa o que ela quer. Fui condenado por amar a mulher do rei. Impossível dizem. Mas ela também me amou. E sei que irá escolher caminhar comigo pela terra a definhar sozinha naquele palácio. – Disse o caminhante com os olhos verdes pregados no chão.
Assim o mestre fez a poção, e o caminhante bebeu. Podia sentir cada um dos desejos que tinha concedido para estar perto do seu sonho. O objectivo. Quando acabou de beber, os sinos da igreja tocaram. O povo soube que tinha morrido um membro da família real. Será que ela iria compreender a sua escolha? Se não o fizesse seria complicado. Mas nada que outra poção não resolvesse.


Por: Miguel Brito
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