28 de outubro de 2010

Viagem

Acordei sobressaltado. Com a respiração ofegante e o corpo húmido do suor, não conseguia tirar da minha mente o maldito sonho. Ou pesadelo. Com a noite já perdida sabia o que tinha de fazer. Levantei-me e ao espelho escovei os longos cabelos loiros, vesti uma túnica verde para contrastar com o negro dos meus olhos. Dirigi-me à biblioteca, se o sábio estivesse em algum lugar do palácio, seria ali.
Ao entrar no recanto mais calmo do castelo fiquei, como sempre, abismado com a sua beleza. As pedras de mármore que serviam de chão possuíam um padrão que parecia aleatório mas, que tinha os seus segredos. Mas hoje não ia em busca deles. As estantes repletas de livros perfumavam o ar com o seu cheiro a folha antiga e sabedoria acumulada. Como gostava daquele cheiro. Ao fundo ouvi páginas a serem viradas, e tive a certeza que tinha encontrado quem procurava.
- Velho sábio, boas noites – Interrompi delicadamente a sua leitura.
- Boas noites meu príncipe – Respondeu o velho.
- Tive de novo o mesmo pesadelo. A cobra volta para me matar. Já não consigo dormir uma noite seguida. – Confessei, atrapalhado.
- O príncipe sabe que eu só respondo às perguntas. Não foi feita nenhuma. Não há resposta a dar. – Respondeu entretido com as páginas do seu livro.
- Quero saber o significado da vida. Tenho a certeza que o último bibliotecário de Alexandria sabe a resposta. O famoso Mahatma. O velho que em jovem viu mundos sem fim e sabe todas as respostas. – Disse, quase exigindo uma resposta.
- A isso já lhe posso responder. Em Alexandria não havia o segredo para o significado da vida. Mas príncipe,prepare uma viagem apenas com alguns mantimentos. Leve esta garrafa azul com o néctar dos deuses. Quando souber a resposta beba um gole e estará novamente perante este seu velho servidor. – Desafiou-me o bibliotecário.
Assim fiz o que me fui sugerido. Numa pequena trouxa reuni alguns mantimentos, saí escondido da cidade sem comunicar nada ao rei. Sabia que me ia tentar impedir, assim ganhava algum tempo. E então começou a minha viagem.
Caminhei duas semanas por entre estradas poeirentas e secas e planícies verdes e frescas. Bebi água doce nas margens de rios de um profundo azul e dormi sobre a protecção de árvores que pareciam dançar ao sabor do vento. Ao fim dessas duas semanas ao longe avistei uma vila. Pensei que ali estaria o significado da vida.
Logo à entrada, um pequeno homem possuía uma bancada parcamente preenchida com alguns livros. As capas velhas e queimadas chamaram à minha atenção. Não que os livros me fossem desconhecidos, já os tinha visto na nossa biblioteca, mas porque a história destes parecia muito mais interessante. Assim chamei o vendedor.
- Meu bom homem, qual é a origem destes livros. – Perguntei educadamente.
- Senhor são as mais belas relíquias de Alexandria. Antes dos bárbaros a terem queimado claro está. Se Não vir o que procura diga que aqui o Abhay encontra tudo. Conheço alguns comerciantes do norte que possuem algumas verdadeiras maravilhas. Não para o homem comum mas para alguém do seu porte senhor. – Respondeu o bom vendedor
- Procuro o livro que me diga o significado da vida. – Disse com tremenda honestidade.
- Meu senhor o significado da vida não se encontra num livro. Mas sim no ar que respiramos e na água que bebemos. – Respondeu com um sorriso o vendedor
Irritado com tamanha falta de respeito, abandonei a banca dos livros. Quem era o desgraçado para me dizer o que era o significado da vida? Devia mandar que lhe cortassem a cabeça. Assim continuei a minha viagem.
Subi as montanhas proibidas enfrentando uma tempestade de neve como há muito não se via. Descansei perto dos ninhos das águias e alimentei-me das minhas parcas provisões. Para dormir procurava uma qualquer gruta abandonada por um urso após a hibernação. O inverno terminou, e com a primavera chegou a segunda vila que visitei. O ar estava repleto com polén das flores. Sempre fui alérgico e não parava de espirrar. No meio de um ataque de espirros, senti um encontrão. Rapidamente me senti mais leve e percebi que tinha sido assaltado. Olhei em redor e vislumbrei o meu alvo. Um jovem com sorriso traquina e longos cabelos vermelhos tentava esconder o seu olhar expectante face às conclusões desta sua vítima. Com o treino que tinha, parti em perseguição ao rapaz. Correndo em direcção à floresta, saltamos sobre vedações e deitamos abaixo vários troncos de um ferreiro. Os gritos de ameaça que o homem furiosamente soltava fizeram com que sorrisse enquanto perseguia o ladrão. Há muito tempo que não me sentia tão vivo. Felizmente o desgraçado escorregou. Com o chão irregular da floresta, escondido perante as lindas flores púrpuras o jovem não pode ver a pedra em que tropeçou.
- Ladrão! – Gritei – Devolve-me as minhas provisões ou considera-te um homem morto. – Ameacei
- Tenha calma amigo. Desculpe. É que tinha fome e o senhor não me parece ter problemas em conseguir mais comida. – Confessou o jovem
- Como te chamas rapaz? – Perguntei interessado
- Ajala o carteirista. – Respondeu orgulhoso.
- Carteirista? O que é um carteirista? – Perguntei ainda meio confuso
- Oh, sabe é o mesmo que um ladrão. Mas como nunca magoei ninguém, as pessoas inventaram um nome para mim. Também não sei o porquê de carteirista. Mas prefiro isso a Ajala o ladrão. – Respondeu embaraçado.
Confesso que me senti tocado por aquele jovem, depois de uma tamanha perseguição, fazia jus ao seu nome e nunca me tentou atacar. Acabei por partilhar uma conversa e uma parte do meu jantar.
- Procuro a resposta para o significado da vida. – Conclui a minha história
- Meu senhor o significado da vida é simples. Está no fogo que nos aquece e na terra que nos abriga. – Respondeu com um sorriso.
Mais uma vez fiquei irritado e sem uma palavra retirei-me. Quem julgava que era aquele ladrãozito para saber o significado da vida e eu, um príncipe andava à procura da resposta. Assim continuei a minha viagem.
Passados alguns dias, seguindo pela estrada do rei, vislumbrei uma jovem. Achei estranha a forma como se vestia, parecia um rapaz. Mas mesmo ao longe as suas formas femininas e os seus cabelos ondulados não escondiam a sua identidade. Aproximei-me dela por julgar que não era um lugar para uma jovem caminhar sozinha.
- Olá minha senhora. Posso fazer-lhe companhia durante a sua viagem? – Perguntei com todo o respeito.
- É claro que pode. Sei quem é. É o príncipe herdeiro. Já estive num dos seus famosos bailes. – Respondeu com um sorriso pateta. Os seus olhos castanhos possuíam um brilho inteligente e a sua cara dava mostras de uma vontade de ferro. – Sou filha dos duques de Arisp. Mas estou numa demanda pela minha felicidade, contra a vontade dos meus pais, é claro.
- Procuro a resposta para o significado da vida. – Acabei a minha história.
- Meu príncipe a resposta para o significado da vida é simples. É ter a liberdade para seguir os nossos desejos. – Respondeu com um sorriso sábio.
Nesse momento não senti raiva nem irritação. Tinha percebido a resposta. Despedi-me da jovem, desejando sorte na sua demanda. Convidei-a sempre que quisesse para aparecer no palácio, seria uma convidada de honra. Senti-me à beira de uma árvore e de olhos fechados bebi o néctar dos deuses. O mundo deu voltas e voltas e quando tive coragem de voltar a ver o que me rodeava, estava na biblioteca com o sábio.
- Então meu senhor, já descobriu o significado da vida? – Perguntou curioso o sábio.
- Descobri. A vida não possui um único significado, mas sim tantos quantos aqueles que a disfrutam. Sei que a minha busca seria eterna pois cada pessoa que visse teria uma resposta diferente à aquela que procuro. Procurava o significado da vida e o que encontrei foi uma viagem fantástica. Respirei o ar, bebi a água, aqueci-me perante o fogo e abriguei-me na terra. E fui livre. O significado da minha vida é a aventura que escolho viver. – Respondi convicto perante o acenar orgulhoso do velho sábio.

Por: Miguel Brito
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