15 de dezembro de 2010

Decisão

A fila era enorme. Dezenas de outros capitães esperavam, nem sempre de forma calma, a sua vez. O registo era obrigatório. Mais uma das medidas de Academia Especial. Os novos donos do Universo, de todos eles.
Jack, simplesmente Jack, como dizia a todos os seus clientes, esperava a sua vez junto aos outros. O pesado sobretudo era inadequado para o planeta, o calor era abrasador, raro no Universo C. Ainda há vinte anos era um simples piloto da força aérea americana e agora era mais um dos transportadores de mercadorias universais. Que mudança.
O empregado da repartição pública chamou, sem muita paciência, o próximo da fila. Jack avançou.
- Boas – disse em perfeito inglês – Capitão Jack a registar a nave “Baleia” – nome dado devido à sua forma aparentada com o rei dos oceanos terráqueos – Há necessidades de transporte?
- Não – respondeu de forma seca o Jkop, Unigrante vindo do Universo J – Há mais capitães que estrelas. Não tem licença para ficar. Ao final do dia, terá de partir ou a nave será apreendida e ficará ao cargo da Academia – afirmou indiferente, enquanto olhava para o resto da fila e suspirava bruscamente, agitando os seus pelos corporais que faziam lembrar o ET da televisão, Alf.
- Compreendo. Obrigado – agradeceu sem qualquer emoção, já sabia que não devia arranjar problemas com a Academia.
Frustrado, o capitão, andou a passear pelos bares, bebendo todas as mistelas possíveis e imagináveis dos vários Universos.
Saiu, a cambalear, do último dos bares que o tinha aceite. Olhou para o céu. Odiava aquela cor magenta, sem nuvens, tão estranha e que tanto dificultava a aterragem da maldita nave que tinha de comandar. Sabia que a sua tripulação deveria estar impaciente e que os homens da Academia deviam estar atentos, afinal, a sua nave era de três estrelas, das mais rápidas que haviam sido construídas. Era jeitosa, pensava ele, mas já velhinha.
Distraído com o olhar, sorriu face aos elevadores que conduziam as dezenas de moradores para as suas habitações construídas a uma altura considerável. Pareciam pequenas bolas de sabão, brilhantes e divertidas, mas sem a vida própria fornecida pelo sopro quente de uma criança animada.
Retomou a sua marcha até ao porto espacial, situado no extremo oposto da larga avenida comercial. Seria uma longa caminhada.
Sentiu alguém a persegui-lo, disfarçou e avançou até um beco. Ali, esperou.
A estranha figura entrou momentos depois, foi apanhada de surpresa.
O capitão empurrou o seu perseguidor contra a parede, desembainhou o punhal de titânio que tinha recebido como pagamento de um serviço menos legal e apontou o mesmo à barriga da figura encapuçada que se movia debilmente.
Com um gesto cauteloso, mas firme, retirou o capucho que lhe negava a identidade da sua presa.
Ficou momentaneamente surpreso. Era uma humana. Visão rara num Universo tão distante e hostil.
- Porque raio andas a seguir-me? – Sem nunca retirar o punhal do seu lugar
- Preciso de uma nave, rápida, para me levar com urgência à Terra – Disse ela, com os seus olhos castanhos presos aos verdes do homem que a aprisionava
- Ainda há pouco estive na repartição pública da Academia, então porque me estás a seguir em vez de procurar algo lá? – Quebrou o intenso contacto visual
- Porque não confio em ninguém que não tenha sofrido com a praga – referiu-se ao vírus mortal, conhecido como “Olddeath” responsável pela morte de milhões de humanos – Já está interessado?
Nenhum humano ficava indiferente à menção do vírus. Todos tinham perdido alguém com ele. Jack tinha perdido muito. A mulher e os dois filhos.
- Fala – silvou – se for uma armadilha, morres! – Olhou de soslaio para a faca, como que para comprovar que não estava a exagerar.
- Preciso que me libertes o braço, tenho de te mostrar algo – pediu, nada gentil
O homem aceitou, ficando de olhos arregalados com o que viu. À sua frente, aquela mulher, segurava um saco com dez cogumelos Bhte, os únicos conhecidos que podem fornecer a cura ao vírus, o único problema é serem totalmente controlados pela Academia e, como tal, o seu custo era incomportável a qualquer humano.
A brisa quente, poeirenta, entranhava-se na garganta de ambos, o que tornou, ainda mais, incómodo o longo silêncio que surgiu.
- Como raio? – Gaguejou – A Academia controla toda a produção, é sabido que os Bhte curam todas as doenças conhecidas nos Universos – continuava incrédulo.
- Não importa o como. Com esta quantidade um laboratório na Europa pode conseguir sintetizar a cura, vale o risco ou não? – Um olhar intenso, desafiador mesmo.
Após um ou dois minutos, Jack aclarou a garganta, cuspiu para o chão e afirmou:
- Vale a pena. Segue-me. Como te chamas? – Enquanto andava com calma, não querendo dar nas vistas
- Nada de nomes – resposta seca de quem se sentia no comando da situação
- Na minha nave todos têm um nome. Qual será o teu? – Uma intensidade na palavra “minha” tentava restabelecer a cadeia de comando pretendida pelo velho capitão
- Esperança. Podem tratar-me por Esperança, é isso que ofereço ao nosso planeta – uma certa vaidade irradiava da voz da bela mulher.
Caminharam, calmamente, de braço dado, como se um solitário capitão tivesse encontrado uma prostituta para passar umas horas animadas.
Assim que se aproximaram da nave, Jack percebeu algo de errado, dois agentes da Academia andavam a rodear todas as naves com o símbolo de comerciantes, e mais agentes andavam pelo cais com um holograma de uma mulher, apesar de diferente daquela que estava ao seu lado, humana, a fazerem perguntas. Problemas, sem dúvida que aquilo significava problemas.
Aumentaram o ritmo e o capitão deu vários apalpões no rabo da sua companheira, dizendo vários palavrões a alto e bom som. Mesmo que pudesse chamar a atenção de todos, fugia bastante do que estavam à procura e ninguém pareceu olhar uma segunda vez para eles.
A zona de carga da “Baleia” abriu, pesadamente, as suas portas, tal como uma baleia que abre preguiçosamente a sua boca para comer um pequeno peixe que a incomoda.
O vento, o maldito vento, levou poeira à cara de um dos agentes da Academia, no preciso instante que virou a cara para se proteger, reparou nela, na estranha prostituta que tinha sido apalpada à frente de todos. Percebeu que era ela, a mulher que procuravam, a maldita que tinha morto três dos seu camaradas. Gritou:
- Parem! Ali, a traidora está ali! – Apontava para a nave
Jack percebeu que a gritaria se destinava a eles. Viu, pela primeira vez, medo no resto da sua cliente. Tinha uma escolha a fazer. Um grito seu e a nave estaria no ar antes de alguém se aproximar três passos, mas uma fuga à Academia era suicídio.
Olhou para o céu magenta. Odiava aquela cor. Teve saudades do céu azul, o de casa. Tomou a sua decisão.

Por: Miguel Brito
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