6 de dezembro de 2010

Museu

A máscara de oxigénio estava regulada para aroma a canela. Era o seu cheiro preferido. Lamentava que já não existisse a possibilidade de lhe sentir o sabor. Mas essa possibilidade ficou perdida, distante, num outro mundo.
Voltr, o sol vermelho, brilhava com pouca intensidade. Era o equivalente à noite no mundo antigo, neste, no novo, não há noite. Apenas uma suave pausa avermelhada do intenso brilho que Ster e Btlio, os sois alaranjados, permitem.
Viktor não sabia se o tempo estava ameno, quente ou frio. O seu fato dourado, térmico, protegia o seu corpo dos perigos que a pesada atmosfera proporcionava aos frágeis corpos humanos.
Mas tudo isto não era uma preocupação consciente do jovem. A visita, o museu, era essa a sua preocupação.
O edifício era simples, um pavilhão gigantesco, de um só andar. O acrílico que substituía os vidros, proibidos neste mundo, deixava entrar o brilho de Voltr, mas não a sua radiação. Era, portanto, uma zona protegida.
O jovem passou o arco da entrada. Como tinha nascido neste novo mundo, não sabia o quão estranhas aquelas luzes florescentes, verdes, seriam para os antigos. Nada de luzes amareladas. Não neste mundo.
O pavilhão estava dividido em várias alas, mas a que Viktor procurava, a que finalmente tinha idade para ver, era a ala da Terra.
Assim que passou o arco, a medição biométrica confirmou que era autorizado a ver a exposição. Os seus olhos azuis brilhavam com uma intensidade única que a curiosidade por fornecer.
Logo ao início, deparou-se com uma projecção holográfica de uma vaca. Estava a pastar, sossegada, num mar verde e calmo. Uma sensação de liberdade encheu as medidas do jovem. Viu que numa das partes mais claras de vaca, um texto dizia: “Vaca, nome comum do antecessor do Kjul.” Um sorriso percorreu o rosto do jovem. Como podia um animal tão pacato ser o antepassado de um dos predadores mais perigosos do mundo. Talvez algum resultado da radiação que se abateu nos animais trazidos da Terra.
A exposição era enorme, um placar referia que era o equivalente a 8 campos de futebol. Viktor não sabia o que era futebol. Tinha de passar pela área do desporto. Tomou nota mental desse facto e continuou o seu trajecto.
Entrou na parte reservada à flora e, de imediato, ficou fascinado com a projecção de um Carvalho gigante. A calma que a árvore lhe fornecia, era como o preencher de um vazio. Toda a sua curta vida ouviu os pais a falar da Terra. De como a vida era melhor e mais bela. Agora percebia o que queriam dizer. Fechou os olhos e pensou o que seria estar sentado à sombra de apenas um Sol, a ver o campo verde e uma vaca a pastar calmamente. Pensou que seria bom
Visitou a ala da religião. Hoje era ponto assente que os Deuses eram uma criação dos homens, mas ainda se podia ouvir alguns antigos a rezarem a uma entidade qualquer. A projecção de um homem de batina passeava calmamente pelo espaço dedicado aos cultos terrestres. “Padre” era o que dizia a legenda. Sentiu-se aborrecido. A religião era a parte mais aborrecida que tinha visto até ao momento.
Ajeitou o seu fato e prosseguiu a sua viagem. Passou nas alas dos desportos – aprendendo o que era futebol com uma explicação interactiva de um tal Cristiano Ronaldo - passando depois para a ala das invenções, literatura e por último das profissões. O seu espanto foi enorme quando viu uma mulher, projectada, com um sedutor vestido preto, a mascar pastilha elástica e com um olhar triste. A legenda afirmava: “Prostituta. Profissão mais antiga registada na Terra.”. Já tinha ouvido falar de mulheres que vendiam o corpo por dinheiro. Mas no seu mundo isso era inconcebível. Quem iria pagar para praticar um acto tão repugnante? Felizmente a procriação era medicamente assistida. Se não já há muito que toda a raça tinha sido extinta. Continuou o seu caminho e viu outra imagem, uma mulher loira, olhos verdes, vestido branco. Era um espanto. Por momentos, Viktor pensou que fosse uma prostituta também, mas a legenda afirmava ser uma qualquer actriz muito conhecida no seu tempo.
Olhou para muitas das alas que faltavam. A ala das drogas despertou alguma curiosidade, mas não tinha de ver tudo hoje. Nem podia. Voltr estava a terminar o seu turno nos céus e quando os irmãos enchessem a tela verde que tinha herdado o nome de céu, como homenagem à Terra, o brilho seria demasiado intenso para estar longe da sua câmara de repouso.
À saída olhou para uma máquina de venda automática, estilo terrestre, como que uma suave recordação que tornasse o mundo mais aceitável para os antigos que ainda vivem em Noé 2036, olhou e viu um Mars. Não resistiu, era o único produto, totalmente terrestre, que ainda era comercializado no universo.
Com uma dentada no chocolate terminou o seu passeio por hoje, amanhã, na noite vermelha, iria visitar mais algumas partes do gigantesco museu. 

Por: Miguel Dias
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