16 de novembro de 2010

Vendedor de Sonhos

Meia-noite. Hora mágica, em que um dia nasce no mesmo segundo que o anterior morre. É a hora da mudança, a hora que faz, literalmente, avançar o mundo. Seria mais profundo se essa hora fosse partilhada por todos os países, mas o homem definiu consoante a sua vontade e esqueceu a vontade do mundo. Meia-noite. Hora de sonhos.
Caminhei calmamente por Lisboa. Na rua escura ao longe ecoam gritos de um qualquer grupo de jovens, mas aqui, ao perto, apenas os meus passos compõem a balada da minha caminhada. Uma terça-feira como outra qualquer. Procurava alguém, não sei quem, mas na minha linha de negócio, alguém há-de me encontrar a mim.
Vejo um casal que anda de mãos dadas na rua. Vêm em minha direcção, serão os clientes desta noite? Talvez. São poucos os passos que nos separam, três, dois, um, nada. Passaram por mim, literalmente. Isto de viver, andar e vender numa dimensão diferente faz-me passar por muitos momentos destes. Sim, a minha dimensão é diferente.
Curioso? Simples, durante a meia-noite sou livre de caminhar no mundo dos vivos, mas apenas os desesperados me podem ver. Sou um vendedor de sonhos e apenas um desesperado paga o preço mais alto. Eu sei, fui um deles.
Olho para cima e vejo um prédio iluminado, pessoas à janela, outras recolhidas à frente da televisão dentro do aconchego das suas casas. Antigamente era mais fácil, as pessoas passeavam mais. Os desesperados não vagueavam pela internet mas sim pelas ruas. É a crise, também chegou ao meu mundo. Sem dinheiro a melhor solução passa por ficar em casa, uns vendo naquela pequena janela brilhante homens e mulheres em estranhas poses, outros simplesmente conversando virtualmente com desconhecidos. No meu tempo o mundo era mais colorido.
Sinto um olhar a incidir em mim, é mais do que sentir, é ter a certeza. É como uma campainha que toca dentro da minha cabeça. Uma cliente.
Aproxima-se de mim uma jovem, já percebeu que sou diferente. Olho com curiosidade para ela. Os seus longos cabelos ondulados fazem-me lembrar o mar que um dia percorri em busca de terras distantes, não sei a cor, está escuro. Os seus olhos são claros, verdes talvez, ou azuis? Quem sabe cinzentos. Tem um rosto bonito, traços simples. Lábios carnudos e um pequeno sinal junto ao nariz, dá-lhe um ar diferente. É uma jovem bonita.
- Quem és tu? – Olhos atentos e preocupados
- Sou um vendedor – sorri
- O que vendes? – Arregalou os olhos como se duvidasse que a cena era real
- Sonhos.
- Não quero drogas! – Afastou-se indignada
- Não são drogas, são sonhos. O que quiseres será teu. Pelo preço certo. – Disse aumentando o tom de voz ao longo dos passos apressados dela.
Vi a jovem parar, como que a pensar. Voltou em minha direcção, abanava a cabeça pelo curto caminho.
- Quero que ele me ame. É esse o meu sonho. Qual é o preço? – Uma lágrima gorda escorria pelo canto da sua bela face.
- O preço é o mesmo para qualquer sonho. A tua alma. Quando morreres, seja daqui a 100 anos seja já amanhã, passas a vender sonhos para toda a eternidade. – Sorri, um sorriso amargo.
- Aceito – pela primeira vez vi o seu sorriso, não era impecável, nem totalmente branco, mas era bonito.
Entreguei à jovem uma pequena garrafa com um líquido cor-de-rosa. Já o fiz milhares de vezes.
- Bebe isto amanhã à meia-noite em ponto. É a hora dos sonhos. – Voltei costas e não lhe disse mais nada. O trabalho estava feito.

Cerca de 25 anos mais tarde cruzei-me com a minha cliente de Lisboa. Fiz-lhe a pergunta que fazia a todos os estagiários.
- Valeu a pena? – Sorri com tristeza
- Não – penso que teria chorado, se fossemos capazes do fazer
- Nunca vale – disse enquanto me afastava para mais uma noite de trabalho.

Por: Miguel Brito 
Enviar um comentário