7 de novembro de 2010

Vozes

Sempre fui diferente. Isso para mim não era novidade, apenas para todos os outros. Enquanto os rapazes da minha idade corriam à volta de árvores para se apanharem uns aos outros, eu ficava sentado a olhar para eles. Todos os outros homens que conheço possuem uma voz dentro de si. Eu, no entanto, possuo duas. É este o meu dom e é esta a minha maldição.
Aos meus dezoito anos lunares parti, finalmente, em busca da resposta. Lembro-me que quando era muito pequeno, um velho viajante, falava de um livro fantasma. Era o livro que continha todas as respostas, todas as soluções e algumas maldições. Nunca tirei da minha cabeça a imagem daquele homem. De cara pintada de azul, fumando o seu cachimbo, olhava para o céu. Não da mesma maneira que eu ou os meus irmãos o fazíamos, ele via algo mais. Penso que via as respostas que eu procurava.
Durante meses cavalguei, rápido, por entre montes e planícies, lagos e desertos. Parte de mim queria parar, descansar. Mas a outra, a que quero apagar, incitava-me a continuar. Assim o fiz, como fazia quase sempre, e isso custou a vida a Força. O meu cavalo.
Nunca fui forte, mas consegui carregar sem dificuldade o essencial para a minha viagem. Ainda não tinha sinal, sinal do livro, sinal das respostas, sinal da maldição, ou da cura. Queria apenas ser normal, igual a todos os outros.
Avistei uma árvore estranha, as suas flores cor-de-rosa, possuíam o brilho das estrelas. Era única. Sentei-me junto ao seu tronco, olhando, abismado, para cima. As flores estavam a deixar-me maravilhado, a minha voz, a que gostava, dizia para a admirar e aprender com a sua capacidade de brilhar. A outra, a que quero apagar, pedia-me para a queimar, por ser rara deveria ser perigosa ou valiosa. Como em nada me favorecia, não a devia deixar para ninguém.
Tentei, com todas as minhas forças, resistir. Mas aquela voz, doce, que sempre me levou um passo à frente dos outros, não a podia ignorar. Assim, da mochila velha e rasgada que carregava, retirei uma das garrafas de fogo dos céus, a bebida mais forte para as noites mais frias. Abri a garrafa, tremendo, e preparei-me para regar a árvore. Assim que o líquido jorrou, um duende surgiu vindo de não sei onde, e bebeu o líquido que despejava.
Iurrrrp, iurrrrrp era o único som que saía dos seus lábios. Fiquei sem reacção.
- Ó monstro…iurrrp porque tentas queimar a árvore sagrada? – Perguntou, cambaleando, o duende.
- Porque tenho de o fazer – respondi sem pensar, estava novamente sob o seu comando, maldita.
- Ó meu estúpido! – Disse o duende, entre golfadas de uma bebida já sua – não sabes que estas folhas são mágicas? São como as estrelas no céu! Podem guiar-te para qualquer caminho! – Disse o duende, de olhos fechados coçando a cabeça através do seu barrete vermelho.
Mata-o, dizia a voz. Olhei para o meu punhal, o seu cabo branco, incrustado com uma safira pendia, sedento, à espera da minha acção. E pela primeira vez na vida, resisti. Não segui a voz.
- Explica melhor – pedi, fazendo um esgar de dor perante os gritos loucos que se instalavam dentro de mim.
O duende, surpreendido, acabou por me fazer a vontade. Retirou uma panela do seu equipamento, que também não me lembro de ver aparecer, e encheu com água. Depois, gentilmente, recolheu uma das flores da árvore. Com um sorriso, entregou-me o estranho objecto.
- Toma monstro…iurrrp…faz uma pergunta que necessite de um caminho, a flor irá rodar e apontar para ele. – Disse o duende quase sem olhar para mim.
Desconfiado, perguntei para onde ficava a minha casa. Duas voltas deu a flor e apontou na direcção correcta. Virei-me de costas para a árvore e perguntei onde estava o duende. Duas voltas e a folha apontou na direcção à minha esquerda.
- Apanhei-te mentiroso! – Gritei enquanto me virava, bruscamente, para encontrar o duende.
A minha surpresa foi enorme quando estava apenas eu e a árvore. Fiz a pergunta óbvia, e segui para o caminho indicado. Já sabia como encontrar o livro.
Não sei quantas luas encheram e esvaziaram, sei sim que me sentia perdido, mesmo na direcção certa. Passava entre multidões como um fantasma passa por paredes, deslizava pelo deserto mais quente como uma cobra perseguida pelo predador. Nada me parava, nada me importava. As vozes estavam lá, mas agora não as ouvia. Nunca me senti tão só.
Já há algum tempo que estava nesta floresta. Tinha tudo o que precisava para recuperar as energias de uma viagem tão longa e fatigante. Mergulhei, nu, no lago fresco e cristalino. Nadei durante horas, ou mesmo dias, não sei. Senti que estava em casa. Quando me senti pronto, voltei para terra, dormindo aquecido e protegido por uma bela fogueira. Com o sol da manhã, mais do que raios e dores nos olhos, nasceram gritos humanos e sons que não compreendia.
Tentei escutar as vozes, mas ambas me tinham abandonado. Corri, então, na direcção de todo aquele ruído.
Nem queria acreditar no que via, um grupo de três caçadores rodeava um pequeno Dragão verde. A mãe já se tinha afastado, com duas crias que voavam a seu lado. Mas este pequeno parecia ter medo de voar. O seu terror, a ver-se desprotegido, longe de tudo o que sempre conheceu, fez-me perder a cabeça. Mata-os, disse a voz. Qual delas, não sei. Mas elas tinham voltado a falar comigo e, agora, eu concordava.
Retirei o meu punhal, e corri, rápido como o vento, rápido como a morte. Nunca fui forte, mas nunca encontrei ninguém mais rápido. Ao encontrar o primeiro dos caçadores, a minha presença ainda lhes era desconhecida, como tal foi fácil passar a lâmina, sedenta, pelo seu pescoço gorduroso. O baque que fez ao cair de joelhos no chão, misturado com os gritos surdos de sangue, alertou os outros para a minha presença.
Erro típico, tentaram rodear-me, sendo o mais rápido já tinha passado por isto em todos os treinos, assim, pude atacar um de cada vez. Enfrentei, em primeiro lugar, o que tinha o elmo com chifres de Dragão, aquela visão fez-me ser cruel ao numa estocada rápida, ferir, mortalmente, o meu oponente numa das virilhas. Não há morte pior para um homem. Mas cometi um erro, fiquei demasiado tempo a olhar para a minha vítima e o último dos caçadores já estava muito perto, perto de mais. Ainda me virei, mas já não consegui apunhalar o meu adversário. Ao invés a minha arma foi roubada, pontapeada para longe. Sabia que nunca sobreviveria a um combate corpo a corpo com aquele homem gigantesco. Mas a sorte sorriu-me, pela primeira vez, e o Dragão que antes tinha estado com medo de morrer mordia agora a perna do caçador. Este, ao sentir a dor, largou a sua arma, e facilmente tratei do assunto.
Arfando, ferido e cansado, tinha salvo o Dragão. Este tinha colocado o seu corpo, verde-esmeralda, junto ao meu. Quando o toquei, não reconheci através do tacto nada igual. Era como se a pedra tivesse ganho uma cobertura quente e aveludada. Era magnífico. A calma e a paz que senti ao tocar no Dragão fez com que esquecesse todas as mágoas do passado, mas não a minha missão.
Após dois dias de descanso, parti, acompanhado por Equilíbrio – nome que entretanto dei ao Dragão – mais uma vez na minha demanda.
Três longos anos passaram, evitei terras povoadas, fugi de pequenos grupos e matei outros, tudo em nome de manter Equilíbrio em segurança. As vozes, essas, ainda as ouvia. Mas pela primeira vez, não pensava no que fazer, fazia.
Numa manhã de inverno, onde o frio e a chuva me açoitavam a vontade de prosseguir perguntei, novamente, à bússola do duende, onde ficava o livro fantasma. A resposta deixou-me sem folgo. Aparentemente estava mesmo ali. Só tinha de andar mais um pouco, e estaria lá.
Acordei o Dragão e corremos, como nunca antes o tínhamos feito. Ele sentia a minha alegria e excitação e eu sentia a sua lealdade. Éramos felizes.
Quando reparei para onde nos dirigíamos, quase não foi a tempo de parar. À nossa frente, eterno, um precipício terminava com o mundo. Não havia mais nada.
 Além de uma rocha flutuante, com uma entrada. Sabia que era ali, estava perto. Podia sentir a resposta a dançar na minha alma, enquanto as vozes gritavam, ao longe.
Equilíbrio percebeu o que precisava dele, como forma de paga por tudo o que tínhamos vivido, ergueu, imponentes, as suas asas aos céus, ali estava o rei e queria o seu domínio de volta. Já em cima de meu Pégaso verde, voamos, aterramos e juntos, entramos.
Ao fundo de um enorme corredor, estava um suporte preto, como a noite, com uma luz fantasmagórica presente nele. Avancei, sentindo o quão perto estava das minhas respostas.
- Onde pensas que vais? – Perguntou alguém atrás de mim
Quando me virei, fiquei abismado, esmagado, pela beleza do que presenciava. Uma mulher, com o cabelo laranja como as chamas que me aqueciam, olhava para mim. Vestia um corpete preto, com traços vermelhos. As botas negras pareciam possuir o brilho astuto dos corvos, mas o que realmente me deixou fascinado, foi a sua pele. Branca como a neve, junto ao seu, apelativo, decote, possuía um conjunto de rubis incrustados na pele, adornados por fios de outro que os rodeavam. Era a visão mais bela e exótica que tinha visto.
- Procurar a cura – respondi, gaguejando
- Não há cura Elvi. Apenas a viagem – respondeu sorrindo
Não queria acreditar naquela mulher, no entanto quando ela disse o meu nome, que já nem o lembrava, senti que me dizia a verdade. Corri, então, para junto do livro. Dentro da cor azul, fantasmagórica, as páginas não faziam qualquer sentido. Pensei, no que seria necessário para ser feliz, mas a única resposta que me surgia era a palavra viagem.
Aterrado, ajoelhei-me e chorei. Chorei por tudo o que tinha feito, por tudo o que tinha deixado de fazer. Lamentei vidas que tirei e agradeci vidas que salvei. Foram anos em busca de uma resposta, apenas encontrei uma viagem.
- Tu és como eu – dizia a bela feiticeira – És um Guia. Aqui terás todo o treino necessário e, um dia, Elvi, quando estiveres pronto, irás com o Equilíbrio salvar o mundo.


Por: Miguel Brito
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